O Brasil concede hoje cerca de R$500 bilhões em incentivos fiscais — recursos que, em sua maioria, não promovem inovação nem aumentam a complexidade produtiva do país. Estimativas indicam que R$450 bilhões desses gastos tributários vão para setores de baixa produtividade e baixo conteúdo tecnológico, enquanto apenas R$50 bilhões chegam a setores estratégicos, como os de aeronáutica (Embraer), equipamentos elétricos (WEG) e máquinas agrícolas (Jacto). Essa assimetria revela uma política de incentivos descolada das metas de desenvolvimento de longo prazo.
A OCDE oferece uma classificação precisa da intensidade tecnológica das atividades econômicas — de “baixa” a “alta” intensidade em P&D — que ajuda a diagnosticar esse desequilíbrio. No topo estão aeronaves, softwares, produtos farmacêuticos e eletrônicos, setores em que o investimento em pesquisa supera 20% do valor adicionado. No extremo oposto, encontram-se agricultura, construção, comércio e serviços básicos, com menos de 1% destinado à inovação. É exatamente aí que se concentra a maior parte das renúncias fiscais brasileiras.
Uma estratégia inteligente seria transferir parte substancial desses incentivos para as atividades de alta e média-alta tecnologia, alinhando a política tributária à política industrial. Essa reorientação não apenas aumentaria a produtividade e a sofisticação da estrutura produtiva nacional, mas também criaria empregos de maior qualificação e impacto ambiental positivo.
O setor químico, por exemplo, é um dos maiores vetores de inovação global e tem papel central na transição ecológica, seja na criação de novos materiais sustentáveis, seja na descarbonização industrial. Fortalecê-lo é uma das formas de colocar o Brasil na fronteira tecnológica e ambiental.
Essa visão está em linha com o “Made in China 2025”, plano estratégico que reorganizou os incentivos fiscais e creditícios da China em torno de dez setores de ponta, incluindo robótica, veículos elétricos, semicondutores e biotecnologia. O país criou um roadmap de reindustrialização tecnológica e direcionou recursos para empresas inovadoras, com forte coordenação estatal e metas claras de autonomia tecnológica.
Seguir essa lógica — de usar o Estado para criar e direcionar mercados e não apenas corrigi-los — é essencial para que o Brasil transforme seus incentivos fiscais em motores de inovação, complexidade produtiva e sustentabilidade. Em vez de sustentar atividades estagnadas, o país precisa financiar o futuro.


