Teremos novo apagão de energia?

*escrito por Inessa Salomão

O crescimento do PIB e a falta de chuvas contribuem para o aumento do risco de crise energética e ocorrências de apagão no Brasil? A reposta certa é depende. O impacto ambiental da derrubada de florestas e sua substituição por pastagens e produção agrícola colaboram para a desregulação do ciclo hidrológico. Linhas gerais podemos dizer que a ausência da floresta fechada gera menor unidade no ar, leva a menor condensação, que reduz a chuva e muda os regimes dos rios, dos lagos e dos chamados rios voadores também. No longo prazo, essas alterações do ciclo hidrológico causam mudanças climáticas e desertificação, que pode ser entendido como a redução do estoque de matéria-prima para a geração de energia hidroelétrica. Todo planejamento energético é um modelo de oferta e demanda com múltiplos inputs (fontes de geração) e outputs (tipos de consumidores). Basicamente, uma situação de equilíbrio considera a satisfação dos consumidores (lado da demanda: Industrial, comercial e serviços, residencial, setor público, entre outros) com a oferta de energia elétrica conforme a matriz do país. No caso do Brasil, as principais fontes são as usinas hidroelétrica (54%), usinas térmica (21%), eólicas (16%) e demais fontes alternativas como solar e PCH (9%), conforme projetado para o Plano 2030.  O ONS (Operador Nacional do Sistema) despacha a energia no SIN (Sistema Interligado Nacional) conforme regras predefinidas para todos os diferentes consumidores de acordo com sua demanda, o preço da energia varia de acordo com a fonte. A energia elétrica de UTE (Usinas termelétricas a gás natural) são mais caras que a energia produzida em uma UHE (Usina Hidroelétrica), por vários fatores, dentre eles o combustível e/ ou matéria-prima da geração, que em uma é regulado pelo mercado do petróleo e na outra é virtualmente de graça, a chuva; assim como, pelo custo de depreciação e manutenção associado a cada uma das usinas, por exemplo. No médio prazo, o planejamento desse equilíbrio considera que através do SIN (Sistema Interligado Nacional) o incremento do lado da oferta depende de investimentos das geradoras e da transmissão, enquanto do lado da demanda dependerá de programas de redução de consumo, eficiência energética, aumento de investimento em tecnologias poupadoras de energia na indústria, deslocamentos dos horários de pico (Horário de Verão), redução do impacto ambiental. Assim, o planejamento da disponibilidade da oferta de energia elétrica é algo de médio e longo prazos, e a execução é algo imediato, curtíssimo prazo. No curto prazo, portanto, o que pode regular esse equilíbrio é a disponibilidade imediata (variável) de acordo com o estoque de águas nos reservatórios, o regime de ventos e a entrada em operação de térmicas a gás que tem maior flexibilidade de operação. Quando não há capacidade ociosa ou falta estoque de vento, de chuva ou o petróleo está caro, o jeito é regular pelo lado da demanda. O Governo usa instrumentos de sinalização de preços, como aumento da tarifa, aumento da disponibilidade de energias mais caras (como a térmica a gás natural), e incentiva a redução da demanda pelo lado dos consumidores. O programa de “Redução Voluntária” para a indústria vai nesse caminho. Ao incentivar a indústria a deslocar o pico da demanda, tenta-se reduzir o risco de ruptura do atendimento (ou apagão). Entre 2019 e 2020, a oferta de capacidade instalada aumentou 2,7%, segundo a EPE, o que mostra que não houve crescimento significativo da disponibilidade fixa. O planejamento de curto prazo no país, segundo a nota técnica da ONS, considera que a recuperação do PIB, agora projetado com crescimento de 4,5% até o final do ano pode gerar problemas no despacho no horário de ponta (entre 18h e 20h59), no final da estiagem em outubro e novembro, isto é, a demanda projetada está muito próxima a oferta, há o risco de ruptura. A ampliação da produção de energia eólica, incentivada desde o PROINFA, e contratada nos sucessivos leilões de energia, tem abastecido o Nordeste e com isso evitado o uso de ainda mais energia proveniente do Sudeste e Centro-Oeste, onde os reservatórios das UHE estão muito baixos e não deve chover tão cedo. Ainda assim, com a ocorrência da retomada de diversas atividades econômicas e a diminuição de chuvas não há estoque de capacidade instalada para aumentar a oferta de energia elétrica, por deficiência de planejamento.

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