Acaba de sair o resultado do IPCA-15, que mede a inflação do período de 15 de junho a 15 de julho. O índice veio acima das projeções de mercado, com variação de 0,36%, enquanto o mercado esperava algo em torno de 0,30% a 0,31%. Embora o número não seja explosivo, está acima do patamar típico para esse período — o que, historicamente, costuma girar próximo de zero.
No acumulado de 2024 até julho, o IPCA-15 registra alta de 3,40%, e em 12 meses, o índice está em 5,30%, portanto acima da meta de 3% ao ano perseguida pelo Banco Central.
A média dos núcleos de inflação recuou levemente de 0,31% para 0,30%, o que é positivo. Lembrando que os núcleos excluem choques temporários (altas e quedas muito fortes), e são usados para captar tendências mais estruturais da inflação.
Destaques por grupo:
Entre os 9 grupos pesquisados, 3 tiveram queda de preços: artigos de residência, vestuário e educação (que ficou estável). Esses grupos estão mais ligados a bens transacionáveis e produtos industriais.
Já as altas mais significativas vieram de habitação (influenciada por energia elétrica), saúde e despesas pessoais. O grande destaque negativo continua sendo serviços, que aceleraram de 0,31% para 0,70%, e os serviços subjacentes subiram de 0,42% para 0,45% — evidência de que a inflação estrutural ainda persiste no setor mais ligado ao mercado de trabalho.
A difusão da inflação (percentual de itens com alta de preços) caiu de 57,77% para 51,23%, mostrando leve melhora na amplitude do aumento de preços.
Interpretação:
O quadro geral segue misto. A indústria e os bens transacionáveis continuam com dinâmica fraca, como temos visto nos IGPs e IPAs — com deflação nos preços ao produtor, especialmente em bens industriais e agropecuários.
Por outro lado, há pressão persistente em serviços, reflexo de um mercado de trabalho ainda aquecido, com desemprego baixo. Isso impede que a inflação converja rapidamente à meta, exigindo atenção do Banco Central.
Observação adicional – tarifas e commodities:
Houve queda expressiva nos preços de produtos afetados pela tarifa do Trump, como carne bovina, suco de laranja, café e peixes, que estavam voltados para exportação aos EUA e agora, com barreiras, pressionam os preços domésticos para baixo. Isso pode ajudar a compor leituras de deflação nas próximas semanas.
Apesar disso, não há avanços relevantes nas negociações comerciais entre Brasil e EUA nesse tema. A exceção é uma possível agenda envolvendo minerais estratégicos, especialmente terras raras, fundamentais para a transição energética (baterias, equipamentos, geração limpa). O Brasil é o segundo maior detentor de reservas de terras raras do mundo, e isso pode abrir oportunidades futuras.
Expectativas para política monetária:
No curto prazo, o cenário não altera significativamente as expectativas sobre política monetária. O Copom deve manter a taxa Selic em 15%, encerrando o ciclo de alta. O Fed também não deve fazer mudanças por enquanto, diante de dados ainda mistos nos EUA.



