Tivemos ontem um rally de alívio após o recuo do ex-presidente Donald Trump, que anunciou a redução das tarifas recíprocas para 10%, com exceção da China, que continua com uma tarifa de 125%. As tarifas já anunciadas para Canadá e México também permanecem, com exceções para alguns produtos, especialmente do setor automotivo.
É um cenário mais tranquilo do que o de ontem pela manhã, quando falava-se até em um “apocalipse” tarifário, com tarifas altíssimas. Estava mais ou menos claro que Trump acabaria recuando, pois aquilo parecia ser parte de uma negociação. Não sabíamos quando isso ocorreria, mas o recuo veio rápido.
O resultado foi um rally muito forte nos mercados. O Nasdaq subiu 10%, voltando acima dos 5.000 pontos, e o dólar teve uma reversão brutal, perdendo força e caindo para R$ 5,85 no Brasil. Houve valorização do real e de outras moedas emergentes — um movimento muito intenso de reversão.
É importante, no entanto, ter cautela em dias de estresse agudo, pois os movimentos são violentos tanto na ida quanto na volta. Basta uma notícia inesperada como a de ontem para mudar completamente o cenário.
Claro que a situação ainda não está resolvida. O impasse entre China e Estados Unidos continua. Eventualmente, deve haver algum acordo sobre as tarifas. O Brasil perdeu a vantagem que tinha com a tarifa reduzida de 10%, já que agora essa taxa foi estendida a todos os países.
As negociações seguem em aberto, e ainda há incerteza sobre o impacto inflacionário disso. A China exporta US$ 440 bilhões aos EUA — um volume significativo. Uma tarifa de 125% sobre esses produtos prejudica tanto a China quanto os Estados Unidos, pois encarece os bens no mercado americano.
As exportações chinesas para os EUA representam 15% do total das exportações da China — ainda que essa participação esteja em queda. Também existem US$ 150 bilhões em exportações americanas para a China que estão sendo tarifadas, principalmente produtos do agronegócio. O agro americano já sofre com falta de mão de obra imigrante ilegal e agora enfrenta também tarifas na ponta da venda — uma combinação muito difícil.
A tendência é que tudo isso pressione os dois países a buscarem algum tipo de acordo. Pode não ser um “grande acordo”, mas algo que alivie o peso tarifário.
O cenário segue problemático. Ainda é preciso avaliar como isso vai afetar a atividade econômica e a inflação nos EUA. A propósito, o índice de preços ao consumidor (CPI) de março foi divulgado hoje e trouxe uma boa notícia: o índice cheio subiu 0,1%, abaixo da previsão de 0,3%. Na comparação anual, o núcleo da inflação (core CPI) subiu 2,8%, desacelerando frente aos 3,0% anteriores.
Além disso, veio um dado surpreendente: o CPI cheio registrou deflação de 0,1% em março (mês contra mês), quando o mercado esperava inflação de 0,1%. A última vez que houve deflação no CPI cheio foi há cinco anos — um dado bastante relevante, que fortalece a tese de possíveis cortes de juros.
O mercado de trabalho já precifica três cortes de juros. Ainda é difícil avaliar o efeito líquido da questão tarifária: de um lado, a incerteza retarda consumo e investimento, o que é deflacionário; por outro lado, o aumento de custos de produção pressiona os preços, sendo inflacionário. Como sempre, os economistas divergem sobre o saldo final.
Mas, por ora, o dado de deflação é importante — mostra que a inflação americana não está acelerando demais.
No Brasil, tivemos também uma boa notícia: o volume de serviços medido pela PMS do IBGE subiu 0,8% em fevereiro, acima da expectativa de estabilidade. A PMS cobre cerca de 50% da economia brasileira, já que o setor de serviços responde por aproximadamente 70% do PIB.
Esse dado praticamente garante um crescimento positivo no primeiro trimestre do Brasil. O setor de serviços está 16% acima do nível pré-pandemia, com destaque tanto para os serviços mais sofisticados (TI, comunicação, tecnologia) quanto para os serviços básicos (serviços pessoais e para famílias).
No acumulado de 2024, o setor de serviços já cresceu 2,6%. Em 12 meses, o crescimento é de 2,8% — números que indicam uma economia resiliente e em expansão.
Portanto, temos duas boas notícias nesta manhã:
1. A deflação do CPI nos EUA, indicando inflação controlada;
2. A expansão do setor de serviços no Brasil, sustentando o crescimento econômico.



