Tudo continua anormal no mundo e no Brasil

No cenário mundial a guerra comercial entre EUA e China deve abrandar por conta das eleições americanas em 2020. Trump não vai criar instabilidade econômica no momento de sua corrida presidencial; os chineses também tem interesse de resolver o assunto, por ora. Novos programas de estímulo monetário também voltaram à mesa para discussão, especialmente na Europa e Japão que vem suas economias parando novamente. No momento os EUA são única economia rica que ainda cresce, mas também dá sinais de desaceleração. Os juros de 10 anos na Alemanha voltaram próximos do 0%, nos EUA caíram abaixo dos 2%. Hoje 15 trilhões de dólares em títulos públicos rendem juros nominais negativos. As sucessivas intervenções dos bancos centrais de países desenvolvidos no mercado monetário conseguiram reduzir as taxas de juros de curto e longo prazo contribuindo para comprimir os prêmios de risco, apesar de crescente dívida pública. Embora a compra de ativos em larga escala pelos principais BCs tenha gerado efeitos sobre o preço dos ativos financeiros, foi insuficiente para estimular o investimento produtivo e a recuperação econômica. Apesar da massiva expansão monetária dos BCs, houve uma queda nas expectativas inflacionárias e as ações de política monetária não geraram os impactos antecipados. O alto endividamento das famílias e empresas no mundo impede uma retomada consistente de atividade econômica. Bancos centrais foram obrigados a reformular o desenho das intervenções no mercado, a política monetária não convencional inicialmente concebida como temporária, virou permanente. Os “bond vigilants”, que previam a disparada dos juros longos nos EUA por conta da dívida pública continuam quietos. Taxas de juros próximas de zero, ou mesmo negativas, se tornaram o novo normal.

A plataforma econômica de Trump segue a mesma, claro: “make america great again!”. Os EUA que já tiveram 20 milhões de trabalhadores empregados em manufaturas migraram nos últimos anos para um perfil de serviços financeiros e empresariais, apesar de que o contingente de pessoas empregadas em serviços não sofisticados nos EUA tem crescido de forma rápida (pessoas vestidas de pateta na Disney). Os tipos de ocupação e de atividades produtivas têm produtividades do trabalho muito distintas, Trump sabe disso e trava uma guerra tecnológica contra a China que causou fortes emoções durante 2019. O “american dream” foi baseado na crescente classe media com bons salários a partir da pujante base industrial dos EUA de 1960, 1970 e 1980. Desde que as multinacionais americanas decidiram mudar suas fabricas para China em busca de maiores lucros e menores salários tudo mudou. O “américa dream” virou “asian dream” com Japao, Coreia do Sul, Taiwan e mais recentemente China construindo uma incrível classe media; avanço manufatureiro e tecnológico, estão praticamente no fronteira mundial. Nos EUA ficou o aumento de desigualdade e a divida farta da decadente classe media, quem não ganha bons salários se endivida!  O mercado de trabalho americano está próximo do pleno emprego, mas com pessoas abandonando a força de trabalho e com a maioria de empregos gerados recentemente de baixa qualidade, meio-período ou subemprego; os salários não sobem de forma consistente e a produtividade segue estagnada. O “american” dream virou um “american nightmare” com a típica família americana atolada em dividas: da casa, do carro, dos estudos, e outras tantas mais. Os ricos credores seguem como sempre. Trump e’ filho desse novo mundo e tenta, sem sucesso, mudar o status quo. Na Europa ocidental ocorreu algo parecido: a transferência dos fabricas do mundo para a Asia casou grandes mudanças no modo de vida ocidental. A experiencia do euro também foi num certo sentido um boom de credito que turbinou os países do sul. Com exceção da grande Alemanha, fica difícil dizer hoje que os entrantes da zona estão hoje muito melhores do que há 20 anos.

No Brasil seguimos em recuperação lenta. Nosso nível de produção industrial está hoje ainda 20% abaixo do nível observado em 2014 e a apenas 20% acima dos anos 1980. Destaque para a melhora do varejo e construção civil em São Paulo: talvez daqui a 3 anos consigamos retomar o patamar de PIB de 2014. Nesse cenário a taxa SELIC deve continuar caindo e não provocará outra bolha de crédito como a que se viu em 2012; é difícil inflar duas bolhas na sequência. O estoque de dívidas das famílias e empresas continua alto, apesar de ter diminuído na margem; o excesso de oferta criado durante a forte expansão de crédito demorará a ser absorvido. O câmbio relativamente estável na casa dos R$4,00 e recuperação lenta de atividade vão manter inflação na casa dos 3,5%. Com juros mais baixos, a trajetória da dívida pública melhora muito, mostrando inclusive queda a partir de 2023 se o nosso crescimento acelerar a 2,5% ao ano. Esse cenário manterá nosso CDS abaixo dos 200 pontos e nossos preços de ativos seguem atrativos. O Brasil segue em seu novo normal, anormal.

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