Ubiquidade, diversidade e escala: por que as atividades mais complexas se concentram em poucos lugares?

Quando analisamos a estrutura produtiva dos municípios brasileiros, aparece um padrão muito claro. Algumas atividades estão presentes praticamente em todo lugar. Outras aparecem em apenas algumas dezenas ou centenas dos mais de 5.500 municípios do país.

Essa diferença é capturada pelo conceito de ubiquidade.

Uma atividade é muito ubíqua quando está presente em muitos municípios. Comércio varejista básico, restaurantes, pequenas oficinas, salões de beleza, construção civil e diversos serviços pessoais tendem a aparecer em quase todas as cidades porque precisam estar fisicamente próximos do consumidor.

No extremo oposto aparecem atividades encontradas em apenas 30, 50, 100 ou 200 municípios brasileiros. São atividades de baixa ubiquidade.

E isso nos diz algo importante sobre a estrutura produtiva.

Diversidade e não ubiquidade

A lógica da complexidade econômica parte de duas informações complementares.

A primeira é a diversidade: quantas atividades diferentes um município consegue realizar.

A segunda é a ubiquidade: em quantos municípios determinada atividade aparece.

Municípios mais sofisticados produtivamente costumam apresentar grande diversidade de atividades, incluindo várias atividades pouco ubíquas.

Isso não acontece por acaso.

Atividades pouco ubíquas normalmente exigem combinações mais específicas de conhecimento, infraestrutura, fornecedores, trabalhadores especializados, instituições, capital, tecnologia e acesso a mercados.

Poucos lugares conseguem reunir simultaneamente todas essas capacidades.

Por isso, quanto mais sofisticada determinada atividade, maior tende a ser sua concentração espacial.

A economia de escala entra nessa história

Há ainda outro mecanismo importante: economias de escala.

Muitas atividades não precisam estar presentes em todos os municípios porque uma única unidade produtiva consegue atender mercados muito maiores.

Imagine uma indústria de máquinas agrícolas.

Não faria sentido econômico construir uma fábrica de tratores em cada município brasileiro. Uma fábrica localizada em poucas cidades pode produzir milhares de unidades e distribuí-las para todo o país.

Quanto maior a produção, menor pode se tornar o custo médio por unidade.

A produção se concentra, enquanto o mercado atendido se espalha.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que várias atividades industriais apresentam baixa ubiquidade.

A fábrica está em poucos lugares.

O produto está em milhares.

Existe, portanto, uma diferença fundamental entre o lugar onde o produto é consumido e o lugar onde ele precisa ser produzido.

Serviços locais funcionam de maneira diferente

Compare isso com um cabeleireiro.

O serviço precisa ser prestado próximo ao consumidor. Um cabeleireiro localizado em Campinas dificilmente atenderá clientes em Manaus ou Recife.

Por isso, atividades desse tipo precisam ser replicadas territorialmente.

Cada cidade precisa de seus restaurantes, oficinas, supermercados, escolas básicas, clínicas, academias e serviços pessoais.

Essas atividades tendem naturalmente a apresentar alta ubiquidade.

Não necessariamente porque sejam simples, mas porque sua própria tecnologia de prestação exige proximidade geográfica.

A demanda é local e a produção também.

A indústria rompe essa restrição geográfica

A indústria possui uma característica fundamental para o desenvolvimento econômico: grande parte de sua produção é transportável.

Uma fábrica pode se localizar em determinado município e vender sua produção para todo o Brasil ou para o mundo.

Isso permite aumentar enormemente a escala de produção.

Em vez de uma pequena unidade para atender cada mercado local, surgem grandes plantas especializadas atendendo mercados nacionais ou internacionais.

É justamente essa possibilidade que cria economias de escala, especialização produtiva, aprendizado industrial e ganhos de produtividade.

Por isso existe uma relação natural entre:

baixa ubiquidade, concentração produtiva, economias de escala e mercados amplos.

Não ubiquidade não significa necessariamente complexidade

É importante fazer uma ressalva.

Uma atividade ser rara geograficamente não significa automaticamente que seja complexa.

A extração de determinado minério, por exemplo, pode existir em pouquíssimos municípios simplesmente porque o recurso natural só existe nesses lugares.

Da mesma maneira, algumas atividades agrícolas dependem de condições específicas de solo ou clima.

Por isso, a análise de complexidade não pode olhar apenas para a ubiquidade isoladamente.

É preciso observar também quem realiza aquela atividade e qual é a diversidade produtiva desses lugares.

Uma atividade pouco ubíqua presente justamente nos municípios mais diversificados tende a revelar capacidades produtivas mais sofisticadas.

Esse é o coração do raciocínio da complexidade econômica.

A revolução dos serviços escaláveis

Durante muito tempo, essa característica de produzir em poucos lugares e vender para muitos mercados esteve associada principalmente à indústria.

Mas a digitalização começou a modificar essa fronteira.

Software é talvez o exemplo mais evidente.

Uma empresa pode desenvolver um programa em São Paulo, Florianópolis, Recife ou Belo Horizonte e vendê-lo para milhares de empresas espalhadas pelo mundo.

O custo de produzir a primeira unidade pode ser elevado.

O custo de fornecer uma unidade adicional pode ser praticamente zero.

Isso gera economias de escala extraordinárias.

A mesma lógica aparece em vários serviços modernos:

software, serviços financeiros digitais, plataformas, engenharia, design, audiovisual, consultoria especializada, computação em nuvem, inteligência artificial e diversos serviços profissionais exportáveis.

São os chamados serviços escaláveis.

Eles não precisam ser reproduzidos fisicamente em cada mercado onde são consumidos.

Nesse aspecto, comportam-se muito mais como manufaturas do que como serviços tradicionais.

Produzir para fora do município muda tudo

Esse talvez seja o ponto econômico mais importante.

Economias pouco sofisticadas dependem fortemente da renda gerada dentro do próprio território.

Um restaurante depende dos consumidores da cidade.

Uma loja depende dos moradores da região.

Um serviço pessoal depende da renda local.

Mas uma indústria ou um serviço escalável pode vender para fora.

Nesse momento, a restrição de tamanho do mercado local desaparece.

Uma empresa localizada em um município de 100 mil habitantes pode atender um mercado de 200 milhões de brasileiros ou bilhões de consumidores no mercado internacional.

É essa capacidade de acessar demanda externa ao território que permite sustentar empresas maiores, salários maiores, maior especialização e investimentos mais sofisticados.

A geografia da complexidade

A baixa ubiquidade das atividades complexas, portanto, não deve ser vista apenas como uma curiosidade estatística.

Ela revela algo profundo sobre a organização espacial da economia.

Atividades simples e fortemente locais precisam existir em muitos lugares.

Atividades sofisticadas, escaláveis e comercializáveis podem se concentrar em poucos lugares e atender muitos mercados.

Essa concentração permite acumular trabalhadores especializados, fornecedores, conhecimento, infraestrutura, universidades, centros tecnológicos e redes empresariais.

Surgem então clusters produtivos.

E esses clusters reforçam novamente as economias de escala e de aglomeração.

A baixa ubiquidade passa a ser simultaneamente consequência e expressão dessa concentração de capacidades.

O desenvolvimento aparece justamente nessa combinação

Os municípios economicamente mais sofisticados não deixam de possuir atividades comuns.

Eles continuam tendo supermercados, restaurantes, escolas, oficinas e serviços locais.

A diferença é que possuem algo além disso.

Eles acumulam atividades que poucos outros lugares conseguem realizar.

Ou seja:

alta diversidade com presença de atividades de baixa ubiquidade.

É justamente essa combinação que caracteriza estruturas produtivas mais complexas.

E boa parte dessas atividades possui outra característica decisiva: consegue produzir localmente para atender mercados muito maiores.

Por isso, quando observamos a não ubiquidade de determinadas atividades industriais ou de serviços modernos, estamos também enxergando, ainda que indiretamente, a presença de escala, especialização, capacidades raras e mercados que ultrapassam as fronteiras locais.

No fundo, desenvolvimento econômico é também isso: deixar de produzir apenas aquilo que todo lugar consegue produzir e passar a dominar atividades que podem ser feitas em poucos lugares, mas vendidas para muitos.


Uma forma de aprofundar essa relação entre diversidade e não ubiquidade é separar três mecanismos que ajudam a explicar por que determinadas atividades se concentram em poucos municípios: economias de escala, economias de aglomeração e capacidade de vender para mercados distantes. Uma atividade pode ser pouco ubíqua porque exige uma escala mínima elevada, porque depende de um conjunto de capacidades que só existe em determinados lugares ou simplesmente porque não precisa estar próxima de seus consumidores. Na prática, esses três mecanismos frequentemente aparecem juntos.

As economias de escala são particularmente importantes para entender a baixa ubiquidade industrial. Uma fábrica com elevados custos fixos não precisa ser reproduzida em milhares de municípios. Uma única planta pode produzir máquinas, medicamentos, automóveis ou equipamentos eletrônicos para consumidores espalhados por todo o país. Quanto maior o mercado que essa empresa consegue alcançar, maior pode ser sua escala e menor a necessidade de dispersão territorial da produção. Nesse sentido, parte da baixa ubiquidade observada nas atividades industriais pode ser interpretada como uma manifestação espacial das próprias economias de escala: produz-se em poucos lugares para vender em muitos.

Existe ainda um segundo mecanismo, relacionado às economias de aglomeração. Atividades sofisticadas frequentemente dependem da proximidade de trabalhadores especializados, fornecedores, universidades, centros tecnológicos, infraestrutura e outras empresas com conhecimentos complementares. Uma fábrica de aviões, por exemplo, não aparece isoladamente no território: ao seu redor tende a surgir um ecossistema de engenheiros, fornecedores, serviços técnicos e conhecimento especializado. Isso ajuda a explicar por que determinadas atividades permanecem concentradas mesmo quando, em princípio, poderiam se instalar em outros lugares. Não seria necessário reproduzir apenas uma empresa, mas todo um conjunto de capacidades produtivas que se acumulou historicamente naquele território.

O terceiro elemento é a possibilidade de produzir localmente e vender para fora, aquilo que a literatura chama de tradability. Muitos serviços tradicionais precisam acompanhar geograficamente seus consumidores: restaurantes, salões de beleza, oficinas e grande parte do comércio precisam existir em praticamente todas as cidades e, por isso, apresentam elevada ubiquidade. Já uma indústria pode produzir em um município e vender para centenas ou milhares de outros. O mesmo ocorre cada vez mais com serviços escaláveis, como software, engenharia, design, audiovisual, serviços financeiros e consultoria especializada. A digitalização, portanto, embaralhou a velha separação entre indústria e serviços: alguns serviços modernos possuem economias de escala e capacidade de acessar mercados distantes muito semelhantes às encontradas na indústria.

Isso permite dar uma interpretação econômica ainda mais profunda aos indicadores de diversidade e ubiquidade. Diversidade mostra quantas atividades e capacidades diferentes um território consegue reunir; a não ubiquidade ajuda a revelar quão raras são essas combinações de capacidades. Municípios capazes de combinar grande diversidade com atividades pouco ubíquas não estão apenas produzindo uma variedade maior de coisas: estão concentrando conhecimentos e competências que poucos outros lugares possuem e utilizando essas capacidades para atender mercados muito maiores do que suas próprias economias locais. Escala, aglomeração e acesso a mercados externos ajudam, assim, a transformar diversidade e ubiquidade de simples medidas estatísticas em instrumentos para compreender a geografia do desenvolvimento econômico.

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