A série Working: What We Do All Day, lançada pela Netflix em 2023 e narrada por Barack Obama, é uma reflexão profunda sobre o significado do trabalho nos Estados Unidos de hoje, em um contexto de desigualdade crescente e rápidas transformações tecnológicas. Dirigida por Caroline Suh, a série se inspira no clássico livro Working, de Studs Terkel, e investiga o que o trabalho representa para quem o executa, para quem depende dele e para a sociedade como um todo.
Com quatro episódios, a série organiza sua narrativa por níveis socioeconômicos e hierárquicos, abordando desde empregos de base — como serviços de hotelaria e cuidadores domiciliares — até posições de chefia e decisão corporativa. Essa estrutura permite uma análise rica sobre o impacto do trabalho na vida das pessoas e sobre como as transformações tecnológicas e econômicas alteram a forma como trabalhamos.
O primeiro episódio, “Service Jobs”, mergulha no cotidiano de trabalhadores de baixa remuneração e pouca estabilidade. Conhecemos histórias de funcionários de hotel preocupados com a automação e de uma mãe que precisa abandonar um emprego para conseguir cuidar dos filhos, mostrando o quanto a precariedade desses postos de trabalho influencia a vida pessoal e familiar.
No segundo episódio, “The Middle”, o foco são trabalhadores que ocupam uma posição intermediária na hierarquia social — profissionais que buscam estabilidade e ascensão, mas enfrentam longas jornadas, alta pressão e a dificuldade de equilibrar as necessidades da família com as demandas do trabalho. A série destaca o papel desses trabalhadores na sustentação do sistema e o quanto sua realidade é frágil diante de crises econômicas.
O terceiro episódio, “Dream Jobs”, apresenta indivíduos que buscam mais do que apenas pagar as contas: querem encontrar propósito no trabalho, algo que traga sentido e realização pessoal. O episódio mostra histórias de quem tenta transformar sua vocação em carreira, conciliando paixões e a necessidade de sobrevivência financeira, bem como de pessoas que atuam politicamente para melhorar condições de trabalho de setores historicamente desvalorizados.
No episódio final, “The Boss”, a câmera se volta para quem toma decisões no topo da pirâmide: fundadores, CEOs e gerentes gerais. A série mostra como essas lideranças lidam com o dilema de equilibrar lucro e responsabilidade social, algumas delas optando por reduzir seu próprio ganho para garantir melhores salários aos empregados, evidenciando que decisões estratégicas têm impacto direto na dignidade de milhares de trabalhadores.
Um dos temas recorrentes na série é a disparidade entre quem ocupa empregos de base e quem tem posições com mais autonomia e estabilidade. A obra também aponta como gênero, raça, classe e geografia interagem para ampliar ou reduzir oportunidades, afetando diretamente a mobilidade social.
Outro ponto central é a tecnologia: a automação aparece como fonte de esperança para alguns e de ansiedade para outros. A série questiona se os ganhos de produtividade dessas inovações serão compartilhados de maneira justa ou se aprofundarão ainda mais as desigualdades.
A série traz uma provocação importante: o que define um “bom emprego”? Para além do salário, é fundamental que o trabalho ofereça dignidade, segurança, previsibilidade, possibilidade de crescimento e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Working reforça que muitas ocupações essenciais, como o cuidado domiciliar, permanecem invisíveis e subvalorizadas, apesar de sustentarem o funcionamento da economia.
Por fim, a produção chama atenção para a necessidade de políticas públicas e práticas empresariais que garantam que mais pessoas tenham acesso a bons empregos. Questões como salário mínimo, seguridade social, regulamentação da jornada de trabalho, valorização do trabalho de cuidado e gestão dos impactos da automação são apresentadas como urgentes para um futuro mais justo e equilibrado.
Assim, Working: What We Do All Day não é apenas uma série documental, mas um convite à reflexão coletiva: qual é o papel do trabalho em nossas vidas e como podemos transformá-lo para que traga dignidade, propósito e bem-estar a todos?


