A história do Zorro nasce no contexto da Califórnia mexicana, uma região que no início do século XIX era marcada por tensões entre diferentes grupos sociais: os colonos criollos (descendentes de espanhóis nascidos na América), os povos indígenas, os camponeses mestiços e os representantes da Coroa espanhola ou, mais tarde, do governo mexicano. O personagem Zorro, criado em 1919 pelo escritor Johnston McCulley, foi inspirado nesse cenário de injustiça e opressão, onde elites locais e autoridades abusavam de seu poder sobre a população comum. Zorro é a máscara da resistência, o justiceiro que combate os abusos do governo e defende os mais fracos — sobretudo os indígenas e camponeses.
A Califórnia, nesse período, era parte do vasto território do vice-reinado da Nova Espanha, sob controle da monarquia espanhola. Com o tempo, a região foi sendo povoada por missões religiosas, fortalezas militares (presídios) e povoações civis (pueblos), que formaram a estrutura básica da colonização. Os missionários, em especial os franciscanos, visavam converter os povos indígenas ao cristianismo, mas frequentemente o faziam por meio de trabalho forçado, disciplinamento e desestruturação das culturas locais. O sistema missionário espanhol, embora civilizador em aparência, era profundamente hierárquico e opressor para os nativos.
Com a independência do México em 1821, a Califórnia passou a fazer parte da nova república mexicana. No entanto, as tensões sociais não desapareceram. A secularização das missões em 1834 e a distribuição das terras indígenas para grandes proprietários (os chamados rancheros) pioraram ainda mais a situação dos povos originários, que perderam acesso a seus territórios e foram transformados em mão de obra barata nas fazendas. Esse cenário agravou os conflitos entre os poderosos e os oprimidos, alimentando mitos de resistência como o do Zorro, que simbolizava a justiça que o Estado não garantia.
O personagem Zorro é retratado como Don Diego de la Vega, um aristocrata californiano que vive sob um disfarce para proteger sua verdadeira identidade como defensor dos fracos. Ele se rebela contra os abusos dos militares corruptos e dos governadores tirânicos, usando sua inteligência, espada e agilidade para humilhar os poderosos e proteger os pobres e indígenas. Sua luta é mais simbólica do que política: é uma luta moral contra a injustiça. Seu cenário, embora romantizado, espelha as disputas reais entre povo, poder militar e burocracia na Califórnia da época.
Além de ser uma fantasia de aventura, Zorro incorpora os elementos do bandido social, figura muito estudada por historiadores como Eric Hobsbawm. Esses bandidos são personagens que infringem a lei do Estado, mas respeitam uma “lei moral superior”, obtendo apoio popular. Zorro, nesse sentido, age fora das instituições, porque entende que elas foram capturadas por interesses que não representam o bem comum. Seu “Z” gravado com espada simboliza o rastro de uma justiça que vem de fora do sistema.
A história do Zorro continua a encantar porque toca em temas universais: o abuso de poder, a luta por justiça, a resistência cultural e a defesa dos vulneráveis. Ela nos remete a um momento específico da história da Califórnia, mas fala também a todas as sociedades marcadas por desigualdade e opressão. A Califórnia mexicana do século XIX, com seus conflitos entre indígenas, colonos e burocratas, serviu como terreno fértil para o nascimento de um herói mascarado que, mais de um século depois de sua criação literária, ainda representa o ideal de justiça popular.
Os Estados Unidos conquistaram a Califórnia mexicana no contexto da Guerra Mexicano-Americana (1846–1848), um conflito marcado por ambições expansionistas dos EUA, instabilidade política no México e o avanço da doutrina do “Destino Manifesto”, que pregava que os americanos estavam destinados a ocupar todo o território entre o Atlântico e o Pacífico.
A Califórnia, até então uma província remota e pouco povoada do México, despertava interesse crescente dos EUA por seu acesso estratégico ao Oceano Pacífico e por seu potencial agrícola e comercial. Em 1845, os EUA anexaram o Texas, que havia se separado do México uma década antes. O México considerou essa anexação uma agressão, e o confronto militar se tornou inevitável.
Quando a guerra começou em maio de 1846, tropas americanas avançaram rapidamente pelo norte do México. Ao mesmo tempo, forças navais dos EUA ocuparam portos californianos como Monterey e San Francisco. Colonos americanos que viviam na região também se rebelaram contra o domínio mexicano e proclamaram a curta “República da Califórnia” em junho de 1846, com apoio tácito do exército dos EUA.
A resistência mexicana na Califórnia foi limitada. Havia poucos soldados regulares, e a elite local estava dividida entre lealdade ao governo mexicano e desejo de manter seus privilégios sob o novo poder. Em 1847, a Califórnia já estava completamente sob controle dos EUA, consolidando-se como uma ocupação militar antes mesmo do fim formal da guerra.
O conflito terminou com o Tratado de Guadalupe Hidalgo, assinado em 1848. Pelo acordo, o México cedeu cerca de metade de seu território original aos EUA — o que hoje corresponde à Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México, partes do Colorado e Wyoming — em troca de US$15 milhões e da promessa (pouco cumprida) de respeito aos direitos das populações locais.
A conquista da Califórnia foi, portanto, parte de um projeto imperial americano e teve consequências profundas: transformou radicalmente a demografia e a economia da região, expulsou populações indígenas e marginalizou antigos proprietários mexicanos, preparando o terreno para a Corrida do Ouro de 1849 e para o surgimento da Califórnia como um dos estados mais ricos e poderosos dos EUA.

