Por que Santa Catarina é um dos estados mais ricos do Brasil (e o que isso tem a ver com compressores)

Existe uma pergunta que vale mais do que qualquer ranking de PIB para entender por que alguns lugares enriquecem e outros ficam para trás: não quanto uma economia produz, mas o que ela sabe fazer que poucos outros conseguem fazer.

Santa Catarina é o melhor exemplo brasileiro dessa ideia. Não é o maior estado, não é o mais populoso, não é o que mais exporta. E, ainda assim, está entre os três lugares economicamente mais sofisticados do país, ao lado de São Paulo e do Rio de Janeiro. A razão não está no tamanho. Está na dificuldade daquilo que o estado aprendeu a produzir.

Fazer muita coisa não é o mesmo que fazer coisa difícil

Imagine dois cozinheiros. O primeiro sabe preparar arroz, feijão, ovo frito, macarrão, salada e mais uma dúzia de pratos simples. O segundo domina um repertório menor, mas sabe fazer um risoto de verdade, um pão de fermentação natural, um molho que leva horas. Qual dos dois é o cozinheiro mais valioso?

O primeiro faz mais coisas. O segundo faz coisas difíceis. E é o segundo que consegue trabalhar num bom restaurante, cobrar mais caro, ensinar os outros. A raridade da sua habilidade é o que a torna valiosa — porque poucas pessoas sabem fazer o mesmo.

Economias funcionam exatamente assim. Um estado que só sabe plantar, criar gado e vender no varejo faz coisas que todo mundo faz. Um estado que sabe fabricar motores elétricos, compressores e máquinas-ferramenta faz coisas que quase ninguém faz. E é esse segundo tipo de conhecimento — raro, acumulado, difícil de copiar — que separa os lugares ricos dos pobres. A isso os economistas dão o nome de complexidade econômica: a medida de quanto uma economia domina capacidades que são, ao mesmo tempo, sofisticadas e raras.

O que Santa Catarina sabe fazer que quase ninguém sabe

Aqui está o que torna o estado catarinense tão interessante. Entre as coisas em que Santa Catarina se destaca no Brasil não estão as commodities baratas que qualquer economia grande produz. Estão os compressores — o estado concentra dez vezes mais desse setor do que a média nacional —, as caldeiras industriais, as máquinas para saneamento, as ferramentas de precisão, os equipamentos hidráulicos, as máquinas que fazem outras máquinas.

É o andar mais alto da indústria. São os bens de capital, os componentes de engenharia, as peças que entram na fabricação de tudo o mais. O mundo inteiro observa quais economias dominam esse tipo de produção, porque é justamente esse conhecimento que costuma andar junto com a riqueza. Uma economia que fabrica compressores e motores elétricos sabe fazer coisas que uma economia que só embala carne congelada não sabe — e essas capacidades abrem portas para outras ainda mais sofisticadas.

Santa Catarina construiu isso ao longo de mais de um século, planta por planta, num tecido industrial espalhado por dezenas de cidades médias — Joinville, Jaraguá do Sul, Blumenau, Brusque, Chapecó, Criciúma. Não é um estado de uma capital gigante cercada de vazio. É um estado de muitos polos, cada um especializado em algo que poucos outros lugares do país sabem fazer.

A pegadinha: mais atividades não significa mais complexidade

O ponto mais fascinante dessa ideia é que ela derruba a intuição óbvia. Se complexidade fosse simplesmente “fazer muitas coisas”, o ranking seria fácil de montar: bastaria contar as atividades de cada estado. Mas não é assim.

Goiás, por exemplo, tem um leque de atividades tão amplo quanto o do Rio de Janeiro — em alguns cortes, até mais amplo. E, no entanto, é uma economia muito menos complexa. Por quê? Porque o que Goiás faz — frigoríficos, esmagamento de soja, agroindústria de commodities — são coisas comuns, que muitos outros estados também fazem. Já o Rio, como Santa Catarina, se especializou em atividades mais raras e mais difíceis.

Voltando aos cozinheiros: Goiás é o cozinheiro que faz muitos pratos simples. O Rio e Santa Catarina são os que fazem menos pratos, mas mais difíceis. A conta que importa não é quantas coisas você faz. É quão raro é o conjunto de coisas que você domina.

Por isso Amazonas, que produz pouca variedade mas concentra a eletrônica rara da Zona Franca, aparece entre os estados mais complexos do país — enquanto vastas economias agrícolas, que produzem em enorme volume, ficam para trás. Volume não é sofisticação. Fazer muito não é fazer difícil.

Por que isso é o que realmente importa

Essa distinção não é um detalhe acadêmico. É, talvez, a coisa mais importante que se pode saber sobre uma economia, porque a complexidade é o melhor previsor que temos de crescimento sustentado no longo prazo. Estados e países que dominam capacidades raras tendem a enriquecer de forma consistente; os que dependem de atividades comuns e de baixa sofisticação tendem a estagnar, por mais que cresçam em momentos de bonança das commodities.

A lógica é intuitiva quando se pensa nela. Capacidades raras são difíceis de adquirir — exigem décadas de aprendizado, de formação de engenheiros e técnicos, de empresas que aprendem umas com as outras. Justamente por serem difíceis, são também difíceis de perder e difíceis de copiar. Elas se tornam a base sobre a qual novas capacidades, ainda mais sofisticadas, podem ser construídas. Quem sabe fazer compressores está a um passo de aprender a fazer sistemas de refrigeração avançados, motores para veículos elétricos, equipamentos de automação. Quem só sabe embalar commodity está preso ao ciclo de preços do que exporta.

É essa a história de Santa Catarina, e é essa a razão pela qual olhar apenas para o tamanho de uma economia engana. O estado catarinense é a prova de que o caminho para a prosperidade duradoura não passa por fazer mais do mesmo, nem por depender de um único recurso abundante. Passa por acumular, com paciência, o conhecimento de como fazer coisas que poucos no mundo sabem fazer — e por transformar esse conhecimento na porta de entrada para o degrau seguinte.

Riqueza, no fim das contas, é conhecimento produtivo acumulado. E Santa Catarina, discretamente, acumulou muito.

Como ler a tabela da complexidade dos estados brasileiros

Uma boa tabela conta uma história para quem sabe olhar. A que temos aqui — o ranking dos 27 estados brasileiros pela sofisticação das suas economias — conta várias ao mesmo tempo. Vale a pena aprender a lê-la coluna por coluna, porque cada uma revela uma faceta diferente de por que alguns lugares prosperam e outros ficam para trás.

O que cada coluna quer dizer

A tabela nasce de uma pergunta: em quantas atividades econômicas cada estado é bom de verdade? Existem 668 tipos de atividade que uma economia pode ter — de plantar soja a fabricar compressores, de vender no varejo a desenvolver software. A coluna “Ativ. VCR≥1” conta, para cada estado, em quantas dessas 668 atividades ele se destaca — ou seja, tem uma concentração maior do que a média do país. É uma medida da variedade produtiva do estado, do tamanho do seu repertório.

A coluna “% das 668” é apenas essa mesma contagem em forma de porcentagem, para dar noção de proporção. São Paulo, com 380 atividades, domina 56,9% de todo o repertório possível — mais da metade de tudo que uma economia brasileira pode fazer. O Acre, na outra ponta, domina 9%.

A coluna “ICE-R” é o coração da tabela. É o índice de complexidade econômica propriamente dito — um número que resume não só quantas coisas o estado faz bem, mas quão difíceis e raras são essas coisas. Valores positivos indicam economias sofisticadas; valores negativos, economias que dependem de atividades comuns e de baixo valor. Quanto mais alto, mais complexa a economia.

E a coluna “Emprego formal” dá o tamanho de cada economia, em número de trabalhadores com carteira assinada — para lembrar que grande e sofisticado não são a mesma coisa.

A primeira leitura: o Sul e o Sudeste no topo

Corra os olhos pela tabela de cima para baixo e a primeira coisa que salta é a geografia. Os primeiros lugares são ocupados por São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio de Janeiro — o eixo Sul-Sudeste industrial. Na metade de baixo concentram-se os estados do Norte e do Nordeste, além das fronteiras agrícolas do Centro-Oeste. Não é acaso: é o retrato de uma industrialização que se concentrou historicamente numa região do país e nunca se espalhou por igual.

São Paulo está numa categoria à parte. Com 380 atividades e ICE-R de +2,60, o estado é quase o dobro do segundo colocado em repertório produtivo. É o centro de gravidade da economia brasileira, o único lugar que faz de quase tudo e faz bem. Nada na tabela chega perto.

A surpresa que ensina o que é complexidade

Mas a tabela guarda uma lição que só aparece para quem cruza as colunas. Compare dois estados: Goiás, na 6ª posição, e o Rio de Janeiro, na 7ª.

Goiás tem 218 atividades em que se destaca. O Rio tem 216 — duas a menos. Pela contagem de variedade, Goiás estaria à frente. E, no entanto, olhe a coluna do ICE-R: Goiás tem índice negativo (−0,29), enquanto o Rio tem índice fortemente positivo (+1,59). Como pode um estado que faz mais coisas ser muito menos complexo?

Aqui está o ponto mais importante de toda a tabela. Complexidade não é sobre quantas coisas você faz — é sobre quão difíceis elas são. As atividades em que Goiás se destaca são as commodities agrícolas: frigoríficos, esmagamento de soja, processamento básico. São atividades importantes, mas comuns — muitos estados as fazem, e não é preciso um conhecimento raro para tocá-las. Já as atividades do Rio de Janeiro, ou de Santa Catarina, são em média mais sofisticadas e mais raras.

É a diferença entre um cozinheiro que sabe fazer vinte pratos simples e um que sabe fazer dez pratos difíceis. O segundo tem repertório menor, mas conhecimento mais valioso. A tabela mede as duas coisas — e é o ICE-R, não a contagem de atividades, que captura o que realmente importa.

Os dois grandes fora da curva

Uma vez que você entende essa lógica, dois estados na tabela deixam de ser confusos e passam a ser reveladores.

O Amazonas aparece lá embaixo na contagem de atividades — apenas 123, na 17ª posição — mas exibe um ICE-R de +1,18, entre os mais altos do país. Faz poucas coisas, mas as poucas coisas que faz são raríssimas: a eletrônica de alta tecnologia da Zona Franca de Manaus, que quase nenhum outro estado brasileiro produz. É o exemplo perfeito de que a raridade vale mais que a variedade. Um repertório pequeno, mas sofisticado, supera um repertório grande e banal.

O Distrito Federal é o espelho invertido. Tem a menor variedade produtiva privada de todos os 27 — só 77 atividades, o último lugar da coluna — e, ainda assim, ICE-R positivo (+0,82). O segredo aqui não é indústria sofisticada, e sim o peso enorme da administração pública federal e dos serviços qualificados que a cercam. Brasília é uma economia de governo, não de fábrica — e a tabela captura essa singularidade.

A parte de baixo da tabela: a outra régua do Brasil

Se a metade de cima conta a história do Brasil industrial, a metade de baixo conta a do Brasil que ficou preso à baixa complexidade. Do Mato Grosso ao Acre, encontramos economias com poucas atividades de destaque e, sobretudo, com ICE-R fortemente negativo. Piauí (−1,16), Tocantins (−1,06), Roraima (−1,00), Maranhão (−0,81), Mato Grosso (−0,91): são estados cujas economias formais se apoiam em administração pública, comércio básico e agropecuária de commodity.

Repare num detalhe importante: alguns desses estados não são pequenos nem pobres em produção. O Mato Grosso é um gigante do agronegócio, move rios de dinheiro na soja e na carne. Mas produzir muita commodity não torna uma economia complexa — porque commodity é justamente o tipo de coisa que muitos produzem e que não exige conhecimento raro. A tabela é implacável nesse ponto: volume não compra sofisticação. Um estado pode exportar bilhões em grãos e ainda assim aparecer no fundo do ranking de complexidade, porque a régua não mede quanto se produz, e sim quão difícil é o que se produz.

O que a tabela ensina, no fim das contas

A mensagem central é uma inversão da intuição comum. Estamos acostumados a medir economias pelo tamanho — pelo PIB, pelo volume de exportações, pelo número de habitantes. A complexidade propõe outra régua: a da dificuldade e da raridade do conhecimento produtivo acumulado.

E essa régua importa porque ela prevê o futuro melhor que o tamanho. Décadas de estudos mostram que economias complexas — as que dominam capacidades raras — tendem a crescer de forma sustentada, enquanto as que dependem de atividades comuns tendem a estagnar, por mais que floresçam em momentos de alta das commodities. A razão é intuitiva: capacidades difíceis levam décadas para serem construídas, são difíceis de copiar e servem de trampolim para capacidades ainda mais sofisticadas. Quem aprende a fazer compressores está a um passo de aprender a fazer sistemas de refrigeração avançados e motores elétricos. Quem só sabe embalar commodity depende do preço do que exporta.

É por isso que Santa Catarina, mesmo sendo apenas a quarta economia em variedade e nem de longe a maior em emprego, figura entre as três mais complexas do país. E é por isso que estados enormes em produção agrícola aparecem no fundo da tabela. A pergunta que a complexidade faz não é “quanto você produz?”, mas “o que você sabe fazer que poucos outros sabem?”. A tabela inteira é a resposta dessa pergunta, estado por estado — e ler as suas colunas com atenção é aprender a enxergar a economia brasileira de um jeito que o PIB, sozinho, nunca deixa ver.

Fonte dos dados: DataViva — plataforma de dados socioeconômicos do Brasil, com indicadores de complexidade econômica regional calculados a partir do emprego formal (RAIS). Desenvolvida originalmente pelo Governo de Minas Gerais em parceria com o MIT Media Lab (2013) e, desde 2022, sob a coordenação do Cedeplar-UFMG. Elaboração própria a partir dos indicadores ICE-R e VCR por estado (RAIS 2023).

Referência metodológica: FREITAS, E. E.; ROMERO, J. P.; BRITTO, G.; STEIN, A. Q.; TORRES, R. DataViva: espaço de atividades e indicadores regionais de complexidade econômica. Texto para Discussão nº 657. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG, 2023. Disponível em: https://www.cedeplar.ufmg.br/pesquisas/td/TD%20657.pdf

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