Keynes e o mito de que cortar salários cria empregos

No capítulo 19 da Teoria Geral, intitulado “Mudanças nos salários nominais”, John Maynard Keynes enfrenta uma das ideias mais tradicionais da economia clássica: a de que o desemprego poderia ser eliminado simplesmente pela redução dos salários. O argumento parecia intuitivo. Se há muita gente desempregada, os salários estariam acima do nível de equilíbrio. Bastaria deixá-los cair para reduzir o custo do trabalho, estimular as contratações e restaurar o pleno emprego. Keynes mostra que essa lógica, razoável para uma empresa isolada, pode dar completamente errado quando aplicada à economia como um todo.

O primeiro problema é que salários são também renda. Quando uma empresa reduz salários, ela diminui seus custos. Mas quando todas as empresas fazem isso simultaneamente, milhões de trabalhadores passam a receber menos. O consumo cai, a demanda agregada enfraquece e as próprias empresas passam a vender menos. Aquilo que parecia uma solução pelo lado dos custos transforma-se em um problema pelo lado da demanda. É um exemplo clássico da falácia da composição: o que funciona para uma empresa não necessariamente funciona para o conjunto da economia.

Há ainda outra dificuldade. O que interessa às empresas não é simplesmente o salário nominal, mas o salário real, isto é, o salário em relação aos preços.

Se os salários nominais caem, mas os preços também caem, o salário real pode diminuir muito pouco. Keynes rejeita, portanto, a sequência automática imaginada pela teoria clássica.

A queda generalizada dos salários produz efeitos sobre preços, consumo, expectativas, juros e investimento. O resultado final sobre produção e emprego é muito mais incerto.

Keynes reconhece, entretanto, um possível mecanismo expansionista. Se salários menores provocarem queda dos preços, uma quantidade nominal de moeda constante passa a representar maior poder de compra. Em outras palavras, aumenta a oferta real de moeda.

Isso poderia reduzir a taxa de juros e estimular o investimento. Mas Keynes percebe imediatamente a estranheza da estratégia. Se o objetivo é aumentar a quantidade real de moeda e reduzir os juros, seria muito mais simples realizar uma expansão monetária do que provocar uma dolorosa deflação de salários e preços esperando que ela produza o mesmo resultado.

Existe ainda um efeito potencialmente perverso. As dívidas são contratadas em termos nominais. Quando salários e preços caem, o valor real dessas dívidas aumenta. Empresas e famílias endividadas passam a carregar um peso financeiro maior justamente quando suas receitas estão diminuindo. A deflação pode, assim, deteriorar balanços, enfraquecer investimentos e aprofundar a recessão. É uma lógica muito próxima da teoria da debt-deflation desenvolvida por Irving Fisher.

O ponto mais profundo do capítulo 19 é que Keynes não explica o desemprego simplesmente pela existência de salários rígidos. Sua tese é muito mais forte. Mesmo que os salários fossem perfeitamente flexíveis, a economia não necessariamente caminharia para o pleno emprego. Cortes salariais podem derrubar preços e demanda sem produzir a expansão necessária do investimento.

A sequência keynesiana é, portanto, muito mais complexa.

O ponto de interrogação é justamente o coração da questão. Não existe mecanismo automático garantindo que salários menores produzam mais emprego.

Por isso Keynes chega a uma conclusão que continua extremamente atual: cortar salários não é uma política confiável para combater o desemprego. Salários nominais relativamente estáveis podem, ao contrário, funcionar como uma âncora para preços, renda e expectativas. O problema central de uma economia deprimida não é necessariamente que o trabalho esteja caro demais, mas que a demanda efetiva seja insuficiente para sustentar produção, investimento e emprego.

Essa é uma das grandes rupturas introduzidas pela Teoria Geral. Keynes desloca a discussão do mercado de trabalho isoladamente para o funcionamento do sistema econômico como um todo. O desemprego deixa de ser visto simplesmente como resultado de salários excessivos e passa a ser entendido como consequência possível de uma economia presa em um equilíbrio de baixa demanda e baixo nível de atividade. Quase noventa anos depois, a discussão continua surpreendentemente viva.

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