Os dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que o mercado de trabalho brasileiro segue em situação excepcionalmente forte. A taxa de desemprego voltou a 5,3%, próxima da mínima histórica da série do IBGE. Quando se fazem comparações com séries mais antigas, é possível sustentar que o país vive hoje um dos menores níveis de desemprego desde os anos 1980.
Para quem acompanha a economia brasileira há mais de duas décadas, é difícil encontrar um período comparável. O mercado de trabalho está apertado, os salários reais subiram, a ocupação bateu recordes e vários indicadores tradicionalmente problemáticos, como desalento e informalidade, recuaram.
Há hoje cerca de 5,8 milhões de pessoas desempregadas no país. Durante a pandemia, esse número chegou a superar 15 milhões. A diferença ajuda a dimensionar a força da recuperação ocorrida nos últimos anos.
O número de pessoas ocupadas também atingiu níveis recordes. São aproximadamente 103,3 milhões de brasileiros trabalhando, contra algo próximo de 81 milhões no pior momento da pandemia. Houve, portanto, uma expansão enorme da ocupação desde aquele período.
O emprego formal também apresenta desempenho muito forte. O número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado está próximo de 39 milhões, outro recorde histórico. Ao mesmo tempo, o desalento caiu para níveis muito baixos e a taxa de informalidade se encontra perto de suas mínimas recentes, em torno de 37%.
Há ainda aproximadamente 26 milhões de trabalhadores por conta própria, número também bastante elevado.
Talvez o indicador mais relevante seja o rendimento. A renda média real do trabalho está próxima da máxima histórica, em torno de R$ 3.762 mensais.
É claro que esse valor ainda está muito distante do padrão de renda dos países desenvolvidos. E esse é justamente o ponto central.
O Brasil conseguiu avançar muito na quantidade de empregos, mas ainda precisa avançar enormemente na qualidade desses empregos.
Nos países ricos, os trabalhadores estão inseridos, em média, em atividades de produtividade muito maior. Produzem bens e serviços mais sofisticados, trabalham com mais capital, tecnologia e conhecimento e, por isso, recebem salários muito superiores.
Esse é o desafio da chamada armadilha da renda média.
O Brasil já não é um país extremamente pobre. A renda per capita brasileira está próxima da faixa de US$ 10 mil por ano, característica de economias de renda média. Países desenvolvidos frequentemente apresentam renda per capita superior a US$ 30 mil, chegando em muitos casos a US$ 50 mil ou US$ 60 mil.
Sair dessa distância exige muito mais do que simplesmente aumentar a taxa de ocupação. É necessário mudar a estrutura produtiva.
É exatamente aqui que entra a discussão sobre complexidade econômica. Economias capazes de produzir bens e serviços sofisticados empregam trabalhadores em atividades de maior produtividade e conseguem pagar salários maiores.
Complexidade econômica não é, portanto, uma discussão abstrata. No fim das contas, ela aparece de maneira muito concreta no cotidiano das pessoas: empregos melhores e salários mais altos.
Isso não significa que a economia brasileira esteja sem problemas. Há sinais claros de desaceleração na margem. Os juros continuam elevados, empresas enfrentam dificuldades financeiras, o número de recuperações judiciais cresceu e os dados mais recentes de atividade econômica mostram perda de fôlego.
Mesmo assim, o mercado de trabalho permanece extraordinariamente forte.
O país saiu de uma situação de mais de 15 milhões de desempregados na pandemia para cerca de 5,8 milhões atualmente. Mais de 103 milhões de brasileiros estão trabalhando, o emprego com carteira atingiu recordes, a renda real está próxima das máximas e indicadores como desalento e informalidade melhoraram.
Em perspectiva histórica, trata-se de um resultado impressionante.
O próximo desafio brasileiro não é apenas criar empregos. É criar empregos mais produtivos, mais sofisticados e capazes de pagar salários muito maiores.
É aí que começa a verdadeira agenda do desenvolvimento.


