Em 5 de dezembro de 1791, Alexander Hamilton entregou à Câmara dos Representantes o Report on the Subject of Manufactures. Era a terceira e última peça do seu programa econômico, depois da federalização das dívidas estaduais e da criação do Banco dos Estados Unidos. As duas primeiras já haviam passado. Sobre essa, corre há muito tempo a lenda de que o Congresso a engavetou por inteiro. Não é bem assim: a pesquisa de Douglas Irwin mostrou que praticamente todas as recomendações tarifárias foram aprovadas já no início de 1792, e o que naufragou foram os subsídios diretos, justamente o instrumento que Hamilton considerava o melhor de todos. Jefferson, que via na manufatura uma ameaça à república agrária de pequenos proprietários, foi o opositor mais eloquente. Ao longo do século seguinte, porém, os Estados Unidos acabaram adotando quase tudo que o relatório propunha. Dois séculos e meio depois, é o texto de Hamilton que continuamos lendo, e não o de seus críticos. Vale entender por quê.
O contexto importa. Os Estados Unidos de 1790 eram uma economia periférica, exportadora de produtos agrícolas, dependente da Europa para praticamente tudo que exigisse transformação industrial. A leitura convencional da época, e também a leitura estática de vantagens comparativas que viria a se consolidar com Ricardo, dizia que o país deveria continuar exatamente assim: plantar, exportar excedente agrícola, importar manufaturas europeias. Hamilton parte justamente dos argumentos dos adversários — reproduz com honestidade a tese de que a agricultura é o emprego mais produtivo do capital e do trabalho, de que forçar a indústria seria desviar a corrente natural da economia para um canal menos benéfico — e passa o resto do relatório desmontando-a.
O primeiro movimento é analítico e continua atual. Hamilton questiona a suposta produtividade superior da agricultura e mostra que a distinção entre renda da terra e lucro industrial é mais verbal do que substantiva: a terra é ela própria um capital adiantado pelo proprietário ao arrendatário, e a renda que ele recebe nada mais é do que o lucro ordinário desse capital. Não há nenhum privilégio ontológico da lavoura. O que existe são diferenças concretas de produtividade entre setores, e essas diferenças precisam ser investigadas empiricamente, não postuladas.
O segundo movimento é o que interessa mais diretamente a quem trabalha com complexidade econômica. Hamilton enumera sete circunstâncias pelas quais a manufatura amplia a massa total de trabalho produtivo de uma sociedade: divisão do trabalho, extensão do uso de máquinas, emprego de segmentos da população que de outro modo ficariam ociosos, atração de imigração qualificada, maior espaço para a diversidade de talentos e disposições que distinguem os homens entre si, campo mais amplo para o espírito empreendedor e, por fim, criação de demanda doméstica firme para o excedente agrícola. Leia essa lista de novo com os olhos de hoje. Diversificação produtiva, capacidades acumuladas, aprendizado tecnológico, complementaridade entre setores, importação de know-how via pessoas. Hamilton está descrevendo, sem o vocabulário, o mecanismo pelo qual uma economia se move no espaço de produtos.
O argumento sobre talentos é o mais bonito e o mais subestimado. Mentes com as capacidades mais fortes e ativas, escreve ele, ficam abaixo da mediocridade e trabalham sem efeito quando confinadas a ocupações que não lhes são congeniais. Numa economia que produz poucas coisas, a maior parte do talento disponível simplesmente não encontra onde se realizar. Diversificar a estrutura produtiva é, nesse sentido, uma forma de ativar capacidade humana que já estava lá, adormecida. É o mesmo insight que reaparece em Hirschman, em Furtado quando fala do subdesenvolvimento como estrutura e não como atraso, e na intuição de Hidalgo e Hausmann de que a complexidade mede conhecimento coletivo incorporado numa sociedade.
Hamilton também antecipa a resposta ao argumento de que a indústria nasceria sozinha se fosse lucrativa. Não nasce, e ele explica por quê: o peso do hábito, o medo de fracassar em empreitadas inéditas, a dificuldade intrínseca de competir com quem já atingiu a perfeição no ramo e, sobretudo, os prêmios e subsídios que governos estrangeiros concedem aos seus próprios produtores. Contra terreno desnivelado, a iniciativa privada isolada não prevalece. É o argumento da indústria nascente antes de List, antes de Kaldor, antes de qualquer coisa que hoje chamaríamos de política industrial. E vem acompanhado de um instrumental: tarifas protetivas, proibições seletivas, mas principalmente subsídios diretos, que Hamilton considera superiores às tarifas porque estimulam sem gerar escassez e sem elevar tanto o preço final.
Há um ponto final que raramente se comenta e que é quase profético. Hamilton escreve que a riqueza não é a única coisa em jogo: independência e segurança nacional dependem da capacidade de um país produzir internamente os essenciais da subsistência, moradia, vestuário e defesa. A memória dos apuros logísticos da Guerra de Independência estava fresca. Duzentos e trinta e cinco anos depois, a discussão sobre cadeias de suprimento críticas, semicondutores e autonomia estratégica ocupa exatamente o mesmo lugar no debate global. Nada disso é novo.
Para o Brasil, a leitura é desconfortável. Somos, em 2026, um país que reproduz com notável fidelidade a estrutura contra a qual Hamilton argumentava: exportador de produtos primários, importador de bens de alta complexidade, com uma participação da indústria de transformação no PIB que caiu para menos da metade do que era nos anos setenta. Os argumentos que ouvimos contra a política industrial hoje são, palavra por palavra, os que Hamilton reproduziu no início do relatório para depois refutar. A diferença é que os americanos, ainda que com atraso e por vias tortuosas, acabaram fazendo o que ele recomendou. Nós ainda estamos discutindo se vale a pena.
O texto completo está disponível em domínio público. Vale ler no original — é mais claro e mais moderno do que boa parte do que se escreve hoje sobre o assunto.
Fontes: o PDF integral do relatório está em constitution.org/2-Authors/ah/rpt_manufactures.pdf; a versão canônica com aparato crítico está no Founders Online do National Archives. Richard Sylla discutiu o documento e sua relação com a política industrial no Journal of Economic Perspectives 38(4), outono de 2024. Sobre o destino legislativo do relatório, ver Douglas Irwin, “The Aftermath of Hamilton’s Report on Manufactures”, Journal of Economic History, 2004.

