Adam Smith é frequentemente apresentado como o grande pai do liberalismo econômico, defensor da mão invisível, dos mercados livres e da concorrência. Seu livro mais famoso, A Riqueza das Nações, publicado em 1776, tornou-se uma das obras fundadoras da economia política moderna. Mas existe um Adam Smith muito menos conhecido, que provavelmente surpreenderia muitos daqueles que hoje o utilizam como símbolo da defesa irrestrita do capitalismo.
Esse outro Adam Smith denuncia a organização dos patrões para impedir aumentos salariais, critica leis que favorecem empresários contra trabalhadores, questiona a renda apropriada pelos proprietários de terra, condena os monopólios e sustenta que uma sociedade não pode ser considerada próspera enquanto a maior parte de sua população permanece pobre.
Algumas dessas passagens poderiam facilmente ser confundidas com textos de Karl Marx, Friedrich Engels ou de algum economista socialista do século XIX. A diferença é que foram escritas em 1776, mais de setenta anos antes da publicação do Manifesto Comunista, de 1848.
A primeira passagem, talvez a mais surpreendente, aparece no Livro I, capítulo VIII, dedicado aos salários. Smith afirma que os patrões estão permanentemente envolvidos em uma combinação tácita, constante e uniforme para impedir que os salários subam acima de sua taxa vigente. Não se trata de uma crítica marginal ou de uma observação isolada. Smith está descrevendo o funcionamento normal do mercado de trabalho e reconhecendo que os empresários possuem uma capacidade estrutural de organização muito superior à dos trabalhadores.
O argumento é particularmente interessante porque antecipa uma questão central da economia política: o salário não resulta simplesmente de um encontro harmonioso entre oferta e demanda. Ele também depende das relações de poder entre aqueles que possuem capital e aqueles que precisam vender sua força de trabalho.
Smith explica que os patrões conseguem resistir muito mais tempo em uma negociação salarial. Um empresário ou proprietário de terras pode sobreviver durante meses ou anos sem contratar trabalhadores, utilizando sua riqueza acumulada. Já os trabalhadores, em geral, não conseguem permanecer muito tempo sem receber salários. A necessidade de sobrevivência cria uma desigualdade fundamental na capacidade de negociação.
Essa análise é surpreendentemente próxima das discussões posteriores sobre conflito distributivo entre capital e trabalho. Smith reconhece explicitamente que a liberdade contratual formal não elimina a desigualdade econômica entre as partes.
A segunda passagem aprofunda essa crítica ao mostrar que o próprio Estado frequentemente favorece os proprietários do capital. No mesmo capítulo, Smith observa que não existiam leis do Parlamento contra associações destinadas a reduzir os salários, mas havia diversas leis contra associações de trabalhadores destinadas a aumentá-los.
É difícil imaginar uma denúncia mais clara da assimetria institucional entre capital e trabalho. Os empresários tinham liberdade para coordenar seus interesses, enquanto os trabalhadores enfrentavam obstáculos legais para fazer exatamente a mesma coisa.
Essa observação antecipa discussões que posteriormente se tornariam centrais na tradição marxista e na sociologia econômica: as instituições não operam necessariamente de maneira neutra, e as leis podem refletir desigualdades de poder entre grupos sociais.
Naturalmente, Smith não estava formulando uma teoria marxista do Estado. Mas sua análise reconhecia que as regras jurídicas poderiam beneficiar sistematicamente os proprietários em detrimento dos trabalhadores.
A terceira passagem talvez seja a mais radical de todas. No Livro I, capítulo VI, ao discutir a formação dos preços e a apropriação da renda, Smith afirma que, depois que a terra se torna propriedade privada, os proprietários passam a colher onde nunca semearam.
A formulação é extraordinária. Smith observa que os donos da terra conseguem cobrar renda até mesmo pelos produtos naturais que existem independentemente de seu trabalho. Madeira, pastagens e outros recursos passam a incorporar uma remuneração ao proprietário simplesmente porque ele possui o direito de controlar o acesso à terra.
Trata-se de uma crítica direta à apropriação de renda baseada exclusivamente na propriedade de um recurso. O proprietário recebe uma remuneração não necessariamente porque produziu algo, inovou ou ampliou a produtividade, mas porque controla juridicamente um ativo escasso.
Essa passagem lembra as críticas posteriores à renda fundiária desenvolvidas por Marx e outros economistas políticos. Também antecipa discussões modernas sobre rentismo, concentração patrimonial e apropriação de rendas econômicas.
É importante observar que Smith não estava defendendo a abolição da propriedade privada. Sua análise tinha como objetivo explicar a formação e a distribuição dos rendimentos entre salários, lucros e renda da terra. Ainda assim, a maneira como descreve a posição dos proprietários está muito distante da visão idealizada segundo a qual toda remuneração econômica resulta diretamente de uma contribuição produtiva.
A quarta passagem aparece novamente no capítulo sobre salários e revela a preocupação social de Smith. Ele afirma que nenhuma sociedade pode ser considerada próspera e feliz quando a maior parte de seus membros é pobre e miserável.
O argumento vai além de uma simples defesa moral da caridade. Smith sustenta que aqueles que alimentam, vestem e abrigam a sociedade devem receber uma parcela suficiente do produto de seu próprio trabalho para viver de maneira digna.
Essa é uma concepção de prosperidade que não pode ser reduzida ao crescimento da riqueza agregada. Para Smith, a situação material da maioria da população importa para avaliar o sucesso econômico de uma sociedade.
A riqueza nacional não pode ser medida apenas pelo patrimônio dos proprietários, pelo volume do comércio ou pelos lucros empresariais. Uma economia na qual a maioria trabalha intensamente, mas permanece na pobreza, apresenta um problema fundamental de distribuição dos benefícios da produção.
Essa preocupação aproxima Smith de uma longa tradição de pensamento econômico que considera os salários, o bem-estar popular e a distribuição de renda elementos essenciais do desenvolvimento.
A quinta passagem trata diretamente do comportamento dos empresários. No Livro I, capítulo X, Smith observa que pessoas do mesmo ramo de negócios raramente se encontram, mesmo para divertimento, sem que a conversa termine em alguma conspiração contra o público ou em algum artifício para elevar os preços.
Essa frase seria perfeitamente compatível com uma crítica contemporânea ao poder dos grandes grupos empresariais. Smith reconhece que empresas podem procurar restringir a concorrência, organizar acordos e elevar preços para aumentar seus lucros.
É interessante notar que essa crítica parte justamente de um autor que defendia a concorrência como mecanismo de organização econômica. Para Smith, entretanto, defender os mercados não significava acreditar que os empresários fossem defensores naturais do interesse coletivo.
Pelo contrário, os interesses particulares dos produtores frequentemente entram em conflito com os interesses dos consumidores e da sociedade.
Essa distinção é decisiva. Uma coisa é defender a concorrência. Outra, completamente diferente, é defender os interesses dos empresários. Smith compreendia que os dois objetivos podiam ser contraditórios.
A sexta passagem aparece no capítulo sobre os componentes dos preços. Smith observa que, quando a produção passa a depender de capital acumulado e de proprietários que contratam trabalhadores, o produto do trabalho deixa de pertencer integralmente ao trabalhador. Uma parte precisa ser compartilhada com o proprietário do capital que o emprega.
Aqui encontramos uma das questões fundamentais que seriam desenvolvidas posteriormente por Marx: como o valor produzido pelo trabalho é distribuído entre trabalhadores e proprietários dos meios de produção?
Smith reconhece que o produto social é dividido entre salários, lucros e renda da terra. A produção capitalista envolve, portanto, uma disputa distributiva sobre o resultado da atividade econômica.
Isso não significa que Smith tenha formulado a teoria marxista da mais-valia. Ele considerava o lucro uma categoria legítima da economia comercial e atribuía ao capital uma função importante no financiamento e na organização da produção. Marx, posteriormente, desenvolveria uma interpretação radicalmente diferente da origem do lucro e das relações de exploração.
Mas é impossível ignorar a continuidade intelectual entre os dois autores. Marx estudou profundamente a economia política clássica, especialmente Adam Smith e David Ricardo, e construiu parte de sua crítica a partir de problemas que esses economistas já haviam identificado.
O ponto mais interessante de todas essas passagens é perceber como a imagem popular de Adam Smith foi simplificada ao longo do tempo.
Smith não enxergava os mercados como mecanismos perfeitos e harmoniosos. Reconhecia conflitos de interesse, assimetrias de poder, privilégios legais, tendências monopolistas e problemas distributivos. Sabia que os patrões possuíam vantagens estruturais sobre os trabalhadores e que a propriedade de determinados ativos permitia a apropriação de rendimentos sem contribuição produtiva equivalente.
O próprio liberalismo de Smith estava associado a uma crítica dos privilégios econômicos e políticos existentes em sua época. Seu objetivo não era substituir os privilégios aristocráticos pelos privilégios de comerciantes e industriais.
Essa observação ajuda a compreender uma diferença essencial entre o liberalismo econômico clássico e certas versões contemporâneas da defesa irrestrita dos interesses empresariais.
Smith defendia a concorrência justamente porque desconfiava da tendência dos produtores de restringi-la. Reconhecia a importância da liberdade econômica, mas não confundia liberdade de mercado com liberdade de formação de monopólios. Defendia o desenvolvimento da riqueza, mas considerava fundamental que seus benefícios alcançassem a maioria da população.
É nesse sentido que algumas de suas passagens parecem surpreendentemente próximas do pensamento socialista.
Evidentemente, Adam Smith não era comunista. Morreu em 1790, muito antes da formulação do socialismo científico, e não propôs a superação da propriedade privada dos meios de produção. Sua obra forneceu fundamentos importantes para a compreensão e a defesa da sociedade comercial.
Mas também forneceu elementos fundamentais para sua crítica.
Talvez essa seja a maior ironia da história do pensamento econômico: muitos dos problemas que Marx posteriormente transformaria em uma crítica sistemática ao capitalismo já estavam presentes, de alguma maneira, na obra do economista frequentemente apresentado como seu maior defensor.
O Adam Smith histórico era muito mais complexo do que o personagem simplificado que aparece em tantos debates econômicos.
Ele compreendia que a riqueza depende do trabalho, que os salários são influenciados por relações de poder, que os empresários podem conspirar contra a concorrência, que a propriedade da terra permite apropriação de renda e que uma sociedade não pode ser considerada verdadeiramente próspera enquanto seus trabalhadores vivem na pobreza.
Por isso, antes de transformar Adam Smith em símbolo de uma defesa incondicional dos patrões, dos proprietários e dos grandes empresários, talvez valha a pena ler o que ele realmente escreveu.
O mais surpreendente não é que Adam Smith tenha feito críticas ao capitalismo que lembram o pensamento socialista. É que essas críticas tenham sido praticamente apagadas da imagem popular de um dos maiores economistas da história.
Referências: Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (1776), Livro I, capítulos VI (Of the Component Parts of the Price of Commodities), VIII (Of the Wages of Labour) e X, parte II (Inequalities occasioned by the Policy of Europe). As passagens foram apresentadas em tradução livre e discutidas em seus respectivos contextos.

