O Brasil sabe fazer coisas complexas — mas emprega sua gente nas simples

Toda economia pode ser lida como um repertório de coisas que se sabe fazer. Algumas dessas coisas são difíceis, raras, dominadas por poucos lugares no mundo: operar um resseguro, fabricar um compressor, administrar um banco central. Outras são fáceis, ubíquas, praticadas em qualquer canto: plantar soja, criar gado, tocar uma repartição pública, varrer um prédio. A distância entre esses dois mundos — o das capacidades raras e o das capacidades comuns — é, no fundo, a distância entre a riqueza e a pobreza das nações.

Resolvi olhar o Brasil inteiro por essa lente. Peguei as 668 atividades econômicas que empregam formalmente os brasileiros — dos cultivos agrícolas às fábricas, dos bancos aos restaurantes — e cruzei, para cada uma, três informações: quão complexa ela é, quanto ela paga, e a que setor pertence. São 60,7 milhões de vínculos formais, o retrato da economia brasileira em 2025 segundo a RAIS. O que emerge desse cruzamento é uma história em três atos, e o terceiro é surpreendente.

Primeiro ato: o mapa da complexidade brasileira

No topo da economia brasileira, sob a lente da complexidade, reina o dinheiro. As atividades mais sofisticadas do país são quase todas do sistema financeiro e de seguros: o arrendamento mercantil, os resseguros, os seguros-saúde, as sociedades de capitalização, a administração de bolsas, os bancos de investimento, o Banco Central. São atividades que exigem um ecossistema raríssimo de capacidades — regulação sofisticada, tecnologia, capital humano ultraespecializado — e que existem em pouquíssimas praças do país. Fazer resseguro não é como abrir uma padaria: exige um acúmulo de conhecimento que quase nenhum lugar possui.

Logo abaixo das finanças, representando a indústria, aparece o andar nobre da manufatura: a fabricação de compressores — a atividade industrial mais complexa do Brasil —, a de caminhões e ônibus, a de material ferroviário, a de catalisadores. É o território dos bens de capital, das máquinas que fazem outras máquinas, aquele que a literatura da complexidade associa às economias mais ricas do mundo. Um país que fabrica compressores sabe fazer coisas que um país que só embala carne não sabe.

E no fundo do poço? Dois tipos de atividade. De um lado, a agropecuária de commodity: o cultivo de soja, a criação de bovinos, o cacau, os cereais. São as lavouras e criações que qualquer região do país pratica — importantes economicamente, geradoras de divisas, mas tecnologicamente ubíquas na sua etapa primária, e por isso de baixíssima complexidade no sentido técnico do índice. De outro lado, um bloco de serviços públicos e associativos que estão em todo lugar: a administração pública em geral, a seguridade social, os Correios, as organizações políticas e religiosas. Presentes em cada município do Brasil, são, justamente por isso, as menos raras — e as menos complexas — de todas.

Segundo ato: onde estão os salários

O mapa dos salários confirma boa parte da história da complexidade, mas com duas torções reveladoras.

A associação existe e é forte: no conjunto das 668 atividades, complexidade e salário caminham juntos com uma correlação de 0,50. E a relação é convexa — o salário sobe devagar na base e acelera à direita, de modo que a distância entre o topo e a base se amplia à medida que se sobe na escala de sofisticação. Quando estimo isso formalmente numa regressão, cada desvio-padrão a mais de complexidade está associado a um salário cerca de 31% maior. O prêmio da complexidade é real, robusto e mensurável.

A primeira torção é o petróleo. Ao lado dos bancos, no topo dos salários, aparece um grupo que a complexidade não prevê: o refino de petróleo paga R$ 28 mil, a extração de petróleo e gás R$ 26 mil, o transporte dutoviário quase R$ 22 mil — salários altíssimos que não vêm da sofisticação técnica da atividade (a extração de petróleo tem complexidade apenas mediana), mas da renda do recurso natural, da escala de capital e da força sindical. É a marca dos setores de renda de recurso: pagam muito bem sem serem, no sentido do índice, complexos. Riqueza que brota do subsolo, não do conhecimento acumulado.

A segunda torção está no campo. Na agropecuária, a relação entre complexidade e salário chega a ser negativa: as lavouras mais mecanizadas e de escala, como o algodão e a soja, pagam melhor apesar de terem complexidade baixíssima, enquanto nichos de maior sofisticação relativa, como a floricultura e a pesca, pagam pouco. No campo, o salário responde mais à escala e à mecanização do que à sofisticação técnica. Não é o conhecimento raro que puxa a remuneração agrícola — é o tamanho da máquina.

Terceiro ato: o paradoxo que muda tudo

Até aqui, a história é a que se esperaria: complexidade paga, com algumas exceções. Mas há um achado que desmonta a leitura ingênua e que, a meu ver, é a coisa mais importante deste estudo.

Fiz a mesma regressão de duas maneiras. Na primeira, cada atividade conta como uma observação — pergunto pela atividade média. Na segunda, pondero cada atividade pelo número de trabalhadores que ela de fato emprega — pergunto pela experiência do trabalhador médio. Na primeira, o prêmio de complexidade é de 31%. Na segunda, ele desaparece: some, vira estatisticamente zero, e o poder explicativo do modelo despenca de 25% para 1%.

Como pode? A resposta está em onde o Brasil efetivamente trabalha. Quando distribuo os 60,7 milhões de vínculos ao longo do eixo da complexidade, o resultado é contundente: 80,6% de todos os empregos formais do país estão em atividades de complexidade abaixo da média, e apenas 3% em atividades de alta complexidade. A complexidade média das 668 atividades, por construção, é zero. Mas a complexidade média da atividade em que o trabalhador brasileiro típico se encontra é de −0,85, bem no lado negativo da escala.

Os dez maiores empregadores do país são, sem uma única exceção, atividades de complexidade negativa: a administração pública, com seus 9 milhões de vínculos; o atendimento hospitalar; os supermercados; os restaurantes; o ensino fundamental; o transporte de carga; o apoio administrativo; a construção de edifícios; a limpeza de prédios. É aqui que o Brasil trabalha. O andar de cima — os compressores, os resseguros, os bancos de investimento — existe, funciona, paga bem, mas emprega pouquíssima gente.

Esse é o descolamento entre a economia possível e a economia vivida. O Brasil formal sabe fazer coisas complexas. Ele simplesmente emprega a sua gente, em esmagadora maioria, nas atividades ubíquas e de baixa remuneração da base da pirâmide produtiva. O prêmio de complexidade é real — mas beneficia uma minoria concentrada no topo, e não alcança os quatro em cada cinco trabalhadores presos na faixa plana e baixa da curva.

O que isso ensina sobre desenvolvimento

A tentação, diante de um diagnóstico assim, é concluir que o caminho para elevar a renda dos brasileiros é tornar as atividades existentes mais complexas — sofisticar o que já se faz. Mas o paradoxo que descrevi aponta para outra direção, mais difícil e mais funda.

Para a maioria da força de trabalho, alocada na base da pirâmide, o problema não é que a sua atividade seja pouco complexa e precise ser sofisticada. O problema é que ela está numa atividade que, complexa ou não, emprega milhões justamente por ser simples e ubíqua. Subir na escada não significa, para essas pessoas, transformar a limpeza predial numa atividade de ponta — significa que a economia precisa criar mais vínculos nas atividades sofisticadas que hoje existem, mas empregam pouco. É a diferença entre saber fazer coisas difíceis e empregar muita gente fazendo coisas difíceis.

Essa distinção é o coração da agenda do desenvolvimento pela ótica da complexidade. O Brasil já domina o primeiro desafio: temos um repertório respeitável de capacidades raras, da manufatura de bens de capital à intermediação financeira sofisticada. O que nos falta é o segundo: alargar a base de emprego que essas capacidades sustentam, deslocar a estrutura produtiva inteira para a direita, mover trabalhadores das atividades ubíquas para as atividades raras. Não basta que o país saiba fabricar compressores. É preciso que muito mais brasileiros trabalhem fabricando coisas tão difíceis quanto compressores.

A complexidade econômica é o melhor previsor que temos de crescimento sustentado no longo prazo — mas ela só se converte em renda para a população quando deixa de ser um enclave de sofisticação e se torna a matriz do emprego. O Brasil tem o conhecimento. O desafio, como quase sempre em nossa história, é espalhá-lo.


O agronegócio brasileiro remunera, em média, abaixo do restante da economia formal. As 34 atividades agropecuárias empregam 1,83 milhão de trabalhadores com um salário médio ponderado de apenas R$ 2.718 mensais — bem abaixo da mediana de R$ 3.718 do conjunto das 668 atividades do país. Não é acaso: a agropecuária é, de longe, o setor menos complexo da economia brasileira, dominado por lavouras e criações que são ubíquas e tecnologicamente pouco exigentes na sua etapa primária. Os maiores empregadores do campo confirmam o padrão salarial modesto — a criação de bovinos (397 mil vínculos, R$ 2.427), o cultivo de soja (202 mil, R$ 3.666), as atividades de apoio à agricultura (164 mil, R$ 2.469) e a criação de aves (125 mil, R$ 2.537) concentram a massa do emprego rural em faixas de remuneração que raramente superam a mediana nacional.

O que distingue os salários dentro do agronegócio, porém, não é a sofisticação técnica — é a escala e a mecanização. As atividades mais bem pagas do campo são justamente as grandes lavouras de commodity intensivas em capital: a produção de sementes certificadas (R$ 5.005), o algodão (R$ 4.245), a soja (R$ 3.666) e a cana-de-açúcar (R$ 3.238). São atividades de complexidade baixíssima — o algodão e a soja estão entre as menos complexas de toda a economia brasileira —, mas que pagam relativamente bem porque operam com máquinas caras, grandes áreas e alta produtividade física por trabalhador. Na outra ponta estão os cultivos intensivos em trabalho manual e de pequena escala: o cacau (R$ 1.574), a uva (R$ 1.774), a caprinocultura (R$ 1.948) e a fruticultura (R$ 1.988), que remuneram muito pouco apesar de, em alguns casos, exigirem manejo mais delicado.

Daí resulta um traço peculiar e revelador: no agronegócio, a relação entre complexidade e salário é negativa (correlação de −0,24), o inverso do que se observa na indústria e nos serviços. Enquanto na economia como um todo o salário sobe com a sofisticação da atividade, no campo ele responde ao tamanho da máquina e à escala da operação, não ao conhecimento raro acumulado. É a marca de um setor cuja remuneração é puxada pela renda da terra e do capital — pela commodity valiosa e pela mecanização de larga escala —, e não pela complexidade produtiva. O agronegócio brasileiro paga melhor onde é mais mecanizado e commoditizado, e pior onde é mais artesanal, num padrão que reproduz, em escala setorial, a mesma lógica de renda de recurso que faz a mineração de ouro ou a extração de petróleo pagarem bem sem serem, tecnicamente, atividades complexas.


Estudo elaborado a partir das 668 classes de atividade econômica (CNAE) da economia formal brasileira, com 60,7 milhões de vínculos, usando os indicadores de complexidade da plataforma DataViva calculados sobre a RAIS 2025 (coordenação do Cedeplar-UFMG). Metodologia dos indicadores em Freitas, Romero, Britto, Stein e Torres, “DataViva: espaço de atividades e indicadores regionais de complexidade econômica”, Texto para Discussão nº 657, Cedeplar/UFMG, 2023. As regressões e classificações setoriais são de elaboração própria.

Deixe uma resposta