Nova crise cambial a vista na Argentina

Acaba de ser divulgada a revisão dos números de criação de empregos nos Estados Unidos para 2025, e o resultado surpreendeu negativamente: foram registrados cerca de 900 mil postos de trabalho a menos do que o inicialmente divulgado. O mercado esperava uma revisão menor, de aproximadamente 700 mil vagas, mas a diferença foi muito maior, revelando um mercado de trabalho bem mais fraco do que se imaginava.

Essa disparidade não é inédita. No ano passado já havia ocorrido uma revisão significativa, mas a magnitude da atual — quase um milhão de empregos a menos — foi considerada um verdadeiro choque, beirando o catastrófico. O dado reforça a percepção de que a economia americana vem apresentando sinais claros de enfraquecimento no mercado de trabalho.

A reação do mercado foi imediata: os juros de longo prazo, medidos pelo rendimento dos Treasuries de 10 anos, caíram para 4,07%. Esse movimento praticamente confirma, com 100% de probabilidade, um corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros pelo Federal Reserve na próxima reunião. Além disso, cresce a expectativa de mais dois cortes até o fim do ano. Tal perspectiva de afrouxamento monetário nos EUA melhora o cenário para o Brasil e outros países emergentes, ao reduzir pressões sobre o câmbio e atrair fluxos de capital.

O dado divulgado agora se soma a outras estatísticas recentes que já apontavam fraqueza do mercado de trabalho americano. O relatório JOLTS mostrou queda no número de vagas abertas, o ADP apresentou resultados aquém do esperado, e o Payroll havia vindo fraco na última divulgação. A revisão de hoje, portanto, consolida a narrativa de desaceleração do emprego nos EUA.

No campo internacional, outro ponto relevante é a situação da Argentina. Após o resultado das eleições do último domingo, o peso sofreu desvalorização de quase 5%, alcançando cerca de 1.400 pesos por dólar no câmbio oficial, o que sinaliza uma nova crise cambial no país. O índice Merval, principal bolsa argentina, chegou a cair 13%.

Segundo análises de economistas como Robin Brooks, o peso argentino continua fortemente sobrevalorizado, mesmo após a queda recente. Para voltar à média histórica, seria necessária uma desvalorização adicional de 20% a 30%, o que levaria a cotação a algo em torno de 1.700 ou 1.800 pesos por dólar.

O problema da Argentina é agravado pela falta de reservas internacionais e pelo elevado endividamento externo. O governo de Javier Milei, ao seguir uma estratégia semelhante à de Mauricio Macri — recorrendo ao endividamento externo para tentar liberalizar o mercado de câmbio — pode estar caminhando para uma crise ainda mais profunda, com risco de aceleração da inflação.

Esse dilema argentino remete a uma armadilha típica das economias latino-americanas nos anos 1980: cada desvalorização cambial, em vez de resolver o desequilíbrio externo, acaba acelerando a inflação, o que paradoxalmente resulta em um câmbio real ainda mais apreciado. Trata-se de uma situação de “correr atrás do próprio rabo”.

No caso brasileiro, o país viveu algo semelhante no passado, conseguindo superar esse ciclo apenas com a introdução de uma nova moeda e o sucesso do Plano Real em meados da década de 1990. Já a Argentina, sem reservas e com forte indexação da economia, enfrenta um desafio ainda maior para romper esse círculo vicioso.


Escrito por Mario Bernardini:

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A Armadilha Argentina e as Lições do Brasil

A situação atual da Argentina evidencia os limites das políticas monetária e fiscal no combate à inflação quando o problema central é de natureza estrutural e externa. Assim como o Brasil enfrentou nos anos 1980, a Argentina vive hoje o dilema de não dispor de um saldo comercial robusto que sustente sua conta corrente. Essa fragilidade obriga o país a recorrer a sucessivos financiamentos do FMI e à atração de capitais especulativos de curto prazo para fechar as contas externas. O resultado é um ciclo perverso: juros elevados para atrair dólares e, ao mesmo tempo, um câmbio artificialmente apreciado que desestimula a produção local e agrava a dependência externa.

O Brasil só conseguiu escapar dessa armadilha décadas atrás. Dois fatores foram decisivos: o aumento da produção doméstica de petróleo, que reduziu a vulnerabilidade energética, e o boom das commodities agrícolas e minerais impulsionado pela demanda chinesa, que fortaleceu a balança comercial. Esse processo permitiu ao país acumular reservas internacionais substanciais, criando um colchão de proteção contra crises cambiais e oferecendo maior autonomia de política econômica.

A Argentina, por outro lado, segue com déficit na balança comercial. Suas exportações agrícolas, embora relevantes, não são suficientes para compensar as volumosas importações de manufaturados e de energia. O país precisa, portanto, encarar de frente sua fragilidade estrutural. O caminho mais promissor seria investir pesadamente em Vaca Muerta, uma das maiores reservas de gás não convencional do mundo, para alcançar autossuficiência energética e até se tornar exportador líquido de gás. Isso poderia reduzir o déficit em conta corrente, recompor reservas em dólar e abrir espaço para uma política macroeconômica mais estável.

Entretanto, o governo Milei insiste na velha cartilha neoliberal de que o equilíbrio fiscal e o livre funcionamento dos mercados resolverão, por si só, os problemas argentinos. Essa crença ignora que, sem uma base sólida de exportações e reservas, o país seguirá exposto a choques externos e crises recorrentes. Assim, o roteiro tende a se repetir: déficits persistentes, pressões sobre o câmbio, desvalorizações abruptas e novos surtos inflacionários que corroem a renda e a confiança da sociedade.

A experiência brasileira mostra que não basta ajustar contas públicas ou manipular juros. É preciso transformar a estrutura produtiva e garantir superávits comerciais duradouros. Sem isso, a Argentina continuará presa a um ciclo de instabilidade que mina qualquer possibilidade de desenvolvimento sustentado.

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