*escrito com Gustavo Pauro
O Brasil é uma economia de mais de 210 milhões de habitantes, exportadora de commodities agrícolas e minerais, estruturalmente dependente da importação de bens e serviços de alta complexidade tecnológica. Essa dependência não se resume a um déficit comercial: o país costuma manter superávit na balança de bens e, ainda assim, fechar as contas externas no vermelho, porque a conta corrente soma três blocos — bens, serviços e renda primária, esta última composta por lucros remetidos ao exterior e juros da dívida externa. É a combinação entre pauta exportadora concentrada em commodities, forte demanda por bens e serviços sofisticados importados, e déficit crônico em serviços e renda que configura a verdadeira restrição externa ao crescimento brasileiro.
O mecanismo por trás dessa restrição tem formalização própria na economia do desenvolvimento: a Lei de Thirlwall, segundo a qual a taxa de crescimento sustentável de longo prazo de um país é determinada pela razão entre a elasticidade-renda da demanda por suas exportações e a elasticidade-renda de sua demanda por importações. Na prática brasileira, isso funciona assim: quando a economia acelera, a demanda doméstica puxa importações mais que proporcionalmente à renda, porque a estrutura produtiva interna não fabrica em escala nem em qualidade competitiva os bens de capital, insumos industriais e serviços que o crescimento exige. O saldo externo se deteriora, cresce a necessidade de financiamento estrangeiro, e esse financiamento cria vulnerabilidade a qualquer reversão do apetite global por risco — é esse canal, e não a inflação de demanda em si, que historicamente pressiona o câmbio e, por essa via indireta, os preços domésticos. O resultado prático é uma restrição estrutural sobre a velocidade de crescimento compatível com o equilíbrio externo, ainda que o Brasil de hoje enfrente essa restrição com um colchão de reservas internacionais e um perfil de dívida externa muito mais confortáveis do que os das crises cambiais de 1980 e 1990.
Os números recentes ilustram bem esse padrão. Em 2025 o Brasil fechou o ano com déficit em transações correntes de US$ 68,8 bilhões, equivalente a 3,02% do PIB e o pior resultado desde 2014, enquanto as reservas internacionais somaram US$ 358,2 bilhões. Esse déficit foi financiado majoritariamente pela conta financeira, sobretudo por investimento direto estrangeiro, o que evita uma crise cambial imediata mas mantém o país refém do apetite externo por ativos brasileiros — apetite que, segundo levantamentos do BNDES, vem perdendo força: o Brasil passou de acumulação líquida positiva de reservas em 2011 para perdas recorrentes nos períodos mais recentes, à medida que o financiamento externo se torna mais escasso e o déficit em conta corrente persiste. É esse encadeamento entre déficit corrente, dependência de capital estrangeiro e fragilidade cambial — não uma equação simplista entre crescimento e inflação — que sustenta a tese de que um ciclo de expansão vigoroso e prolongado tende a corroer as reservas cambiais brasileiras.
Enfrentar essa restrição exige mais do que abrir mão de proteção estatal, e a própria Coreia do Sul, tantas vezes citada como modelo de liberalização, prova o contrário. O Relatório de Desenvolvimento Mundial 2024 do Banco Mundial descreve a trajetória coreana como uma sequência de três fases — investimento, infusão e inovação: primeiro um período de forte investimento público e incentivo ao investimento privado; em seguida uma fase de infusão, já nos anos 1970, em que o Estado usou política industrial deliberada para levar empresas nacionais a adotar tecnologias estrangeiras e métodos de produção mais sofisticados; e só depois, com essa base consolidada, uma fase de inovação própria. Países que tentam pular direto para a inovação sem completar a fase de infusão tendem a fracassar — e foi exatamente esse atalho que o Brasil tentou em diversas políticas de inovação, avançando para a fronteira tecnológica sem que a capacidade de absorção e difusão de tecnologia estivesse suficientemente disseminada no tecido produtivo.
O que distinguiu a Coreia não foi a ausência de Estado, foi a disciplina imposta a ele. Alice Amsden descreveu esse mecanismo como princípio da reciprocidade: o crédito subsidiado e a proteção tarifária concedidos aos grandes grupos empresariais coreanos vinham amarrados a metas rigorosas de desempenho exportador, e eram retirados sempre que essas metas não se cumpriam. Análises recentes do próprio Banco Mundial reavaliaram o chamado grande impulso da política industrial coreana nas indústrias pesadas e químicas dos anos 1970 e concluíram que essa intervenção elevou o tamanho da economia coreana em cerca de 3% ao ano — longe do fracasso que a leitura ortodoxa mais antiga sugeria. Financiamento e proteção, isoladamente, nunca constituíram política industrial nem na Coreia nem em lugar nenhum: sem vinculação a metas de produtividade, exportação e conteúdo tecnológico, geram apenas expansão sem mudança estrutural — e foi exatamente aí que o Brasil errou, com protecionismo sem contrapartida de desempenho, subsídio perene sem condicionalidade e substituição de importações sem prazo de validade nem meta de competitividade externa. O problema nunca foi a dose de intervenção estatal, foi a incapacidade de desenhá-la com disciplina.
Vale notar que os outros dois exemplos do próprio relatório do Banco Mundial — Polônia e Chile — sustentam a tese com menos força do que a Coreia. A convergência de renda chilena em relação aos Estados Unidos estagnou desde 2012, e o principal motor do salto polonês foi a adesão à União Europeia, com acesso a mercado único e transferências estruturais que nenhum país sul-americano tem à disposição. A travessia coreana, apoiada em política industrial coordenada e disciplina de desempenho, é o caso mais robusto e o mais replicável em seus princípios, ainda que não em seus instrumentos exatos.
Do lado social, o desafio brasileiro de compatibilizar transformação produtiva com políticas assistencialistas se resolve melhor quando se separam três planos que costumam ser tratados como um só: política industrial, política de emprego e política distributiva. É verdade que segmentos intensivos em automação geram valor agregado sem gerar necessariamente emprego industrial em massa, mas seu efeito indireto — sobre fornecedores, produtividade agregada, aprendizado tecnológico e demanda por serviços sofisticados — costuma superar em muito esse efeito direto sobre a folha de emprego. A transferência de renda resolve parte do problema distributivo de curto prazo; a transformação produtiva resolve a competitividade externa de longo prazo; nenhuma substitui a outra, e cada uma precisa ser avaliada pelo objetivo que efetivamente cumpre.
No fundo, a armadilha da renda média brasileira é uma discussão sobre transformar vantagem comparativa estática em vantagem competitiva dinâmica. O Brasil tem vantagem consolidada em recursos naturais, agropecuária, mineração e energia; o problema é exportar essas commodities sem converter a renda que geram em capacidade tecnológica e produtiva capaz de reduzir a elasticidade-renda das importações sofisticadas e elevar a elasticidade-renda das exportações brasileiras — o encadeamento que leva de commodities a processamento, tecnologia, engenharia, software, propriedade intelectual e serviços complexos exportáveis. É esse fio que une a restrição externa de Thirlwall, a assimetria de elasticidades de Prebisch e Furtado, a disciplina de desempenho de Amsden e a sequência investimento-infusão-inovação do Banco Mundial numa única leitura coerente do problema brasileiro: não há solução fácil porque a tarefa exige transformar simultaneamente a matriz produtiva, a inserção externa e o desenho institucional da política industrial, com disciplina de resultado como condição para que o apoio estatal produza, finalmente, os resultados que historicamente não produziu.
Referências
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