O Brasil bateu no muro da oferta agregada: sem investimento, o estímulo vira inflação

O Brasil poderia promover uma enorme consolidação fiscal atacando seus gastos tributários. Para 2026, a Receita Federal estima aproximadamente R$ 612,8 bilhões em renúncias, equivalentes a cerca de 4,4% do PIB. Só o Simples Nacional responde por algo em torno de R$ 134 bilhões, a desoneração da cesta básica por cerca de R$ 45 bilhões e as deduções de despesas médicas do Imposto de Renda por mais de R$ 35 bilhões. É muito dinheiro.

Imagine, como exercício, que o governo conseguisse eliminar R$ 300 bilhões dessas renúncias. Seria uma transformação fiscal extraordinária. Evidentemente, não entrariam necessariamente R$ 300 bilhões líquidos no Tesouro, porque agentes econômicos mudariam comportamento, algumas atividades poderiam perder base tributária e várias renúncias possuem justificativas econômicas e sociais distintas. Mas a ordem de grandeza mostra que existe enorme espaço para discutir a qualidade do sistema tributário brasileiro.

O problema é que isso resolveria apenas uma parte da equação.

A economia brasileira está hoje com um mercado de trabalho extremamente apertado. A taxa de desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, uma das menores da série histórica da PNAD Contínua. Chamar isso de “pleno emprego” exige alguma cautela, porque ainda existe informalidade e subutilização relevante, mas não há dúvida de que estamos muito mais próximos de uma situação de restrição de oferta de trabalho do que estivemos durante boa parte da última década.

Ao mesmo tempo, a inflação continua desconfortável. O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,58% em setembro de 2026. Portanto, estamos diante de uma economia em que o espaço para simplesmente acelerar a demanda ficou muito menor.

E é aqui que aparece o problema estrutural.

Uma economia cresce de forma sustentada quando consegue aumentar sua capacidade de produzir. Isso exige investimento, máquinas, infraestrutura, tecnologia, capital humano, inovação e reorganização produtiva. Sem isso, aumentar a demanda simplesmente coloca mais dinheiro disputando uma quantidade de bens e serviços que não consegue crescer na mesma velocidade.

O resultado aparece nos preços.

É exatamente a diferença entre estimular demanda e ampliar capacidade produtiva. Durante uma recessão profunda, quando existem fábricas paradas, desemprego elevado e capacidade ociosa, estimular a demanda pode aumentar fortemente o produto com pouco impacto inflacionário. Empresas têm espaço para aumentar a produção, contratar trabalhadores e utilizar máquinas que estavam ociosas.

Mas isso muda quando a economia se aproxima de seus limites de capacidade.

Se trabalhadores já estão empregados, fábricas estão operando perto de seus limites e infraestrutura está congestionada, uma nova rodada de estímulos não produz a mesma resposta de quantidade. Produz preços.

Esse parece ser cada vez mais o dilema brasileiro.

A taxa de investimento permanece extraordinariamente baixa. No primeiro trimestre de 2026, a Formação Bruta de Capital Fixo representou apenas 16,5% do PIB. Em 2025, havia sido 16,8%. Para um país emergente que pretende crescer 3%, 4% ou 5% ao ano de maneira sustentada, é muito pouco.

Compare isso com economias asiáticas que passaram por processos acelerados de desenvolvimento. Em vários momentos de sua trajetória, China e Coreia investiram algo entre 25% e 40% do PIB. Não é necessário defender que o Brasil copie esses números literalmente. Mas é difícil imaginar um salto de produtividade mantendo investimento em torno de 16% ou 17% do PIB.

O crescimento brasileiro esbarra, portanto, no lado da oferta.

Isso ajuda também a entender por que algumas políticas econômicas parecem funcionar por algum tempo e depois perdem potência. Transferências de renda, expansão do crédito, aumento do gasto público ou redução de impostos elevam a renda disponível e sustentam o consumo. Enquanto existe capacidade ociosa, isso pode gerar crescimento.

Mas existe um limite.

Se a oferta não acompanha, o multiplicador começa a aparecer cada vez menos no PIB e cada vez mais no IPCA.

A economia não consegue consumir permanentemente mais do que consegue produzir.

Por isso, uma reforma dos gastos tributários seria muito bem-vinda, mas o destino dos recursos importa tanto quanto sua arrecadação. Se centenas de bilhões forem simplesmente retirados de benefícios tributários e depois devolvidos à economia por meio de mais consumo corrente e transferências, o efeito estrutural pode ser limitado. O Estado melhora sua arrecadação, mas não necessariamente melhora a capacidade produtiva do país.

O cenário seria diferente se parte relevante desse espaço fiscal fosse convertida em investimento público e em políticas capazes de destravar investimento privado: infraestrutura, saneamento, energia, logística, digitalização, pesquisa, inovação e modernização industrial.

Nesse caso, não estaríamos apenas redistribuindo demanda.

Estaríamos aumentando oferta.

Essa distinção é fundamental.

O Brasil passou muitos anos discutindo como estimular o consumo. Talvez a questão econômica central dos próximos anos seja outra: como aumentar a capacidade produtiva.

Isso exige elevar a taxa de investimento, melhorar a produtividade e alterar a estrutura produtiva da economia.

Sem aumento de investimento, o estoque de capital cresce devagar. Sem aumento de produtividade, cada trabalhador produz aproximadamente a mesma quantidade. E se emprego e utilização da capacidade já estão elevados, simplesmente jogar mais demanda sobre a economia esbarra rapidamente na restrição de oferta.

É por isso que uma política econômica baseada apenas em estímulos fiscais encontra seu próprio limite.

Pode-se aumentar Bolsa Família, crédito subsidiado, benefícios tributários ou consumo público. Tudo isso produz efeitos distributivos que podem ser desejáveis por várias razões. Mas não existe política de demanda capaz de substituir indefinidamente a construção de capacidade produtiva.

Em algum momento, a conta chega na inflação.

O Brasil precisa, portanto, fazer duas coisas ao mesmo tempo.

A primeira é melhorar dramaticamente a qualidade fiscal, inclusive revendo centenas de bilhões de reais em gastos tributários cuja eficácia econômica frequentemente é pouco avaliada.

A segunda é talvez ainda mais importante: transformar parte do espaço fiscal criado em investimento e produtividade.

O verdadeiro problema brasileiro não é simplesmente falta de demanda.

É falta de capacidade produtiva.

Com desemprego perto das mínimas históricas, inflação ainda acima da meta e investimento próximo de 16,5% do PIB, o país está recebendo uma mensagem bastante clara.

Sem investimento, estimular demanda é cada vez menos crescimento e cada vez mais inflação.

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